Karena Karras



Tecendo o anoitecer


Eu,
Tecido de sonho
Abro a cortina, descerro a beleza.
Coso pontinhos
de amor incrustado
em cristal, orvalhado.
Um manto de luz, recobre montanhas,
matizes dourados em raios espalha
o entardecer que seduz.
Rebordo o bordado em ponto de cruz,
com linha em novelos
que cruzam a cena.
Costuro uma estrela,
amarro-a em fitas.
Um laço no abraço
que a noite oferece
me prende ao botão
em ponto de fuga
e do sol me despeço,
fletindo a visão.
Encerro o dia,
zíper fechando o cenário
em doce poesia, magia.

Gaiô.



Karena Karras




Sagração na Primavera

Celebração


Celebra, coração!

O estado de graça vivido

ontem, hoje, para sempre,

Em explícito milagre.

Som tangido, fluido, claro, serelepe, toca o céu,

Em presença fala, canta, dança em luz, gesto, compasso,

Conexão/infinito, salta o tempo, eternidade,

Em pura contemplação, êxtase, ELEVAÇÃO!



Celebra,coração!

Genial... Imortal...ARTE pura inspiração, criação,

Em tempos contemporâneos, homem instante, devorado,

Tempo/espaço desumano, Cronos sofre, não tem tempo,

De plantar, de cuidar, de esperar para crescer, colhe sem desenvolver.

Em delírios especula, perde a paz, o coração,

Nada ouve em seu silêncio, grita em dor, sua aflição,

O amor se liquefaz, escorre domesticado, em rota de colizão...

E o Criador celebra...



Celebra, coração!

Comunga este momento, do homem em desconstrução.

Criação, tanta leveza, redimensiona e encanta

Emociona em nova língua, universo erudição.

Toca, sente, salta doce, Arte e som,

Muda o mundo, muda a mim, em tons e semitons,

Nos interstícios da luz, encontra REVELAÇÃO.

Saia salvo, salva a vida, a esperança renovada,

Invadida em novo olhar, transcendente, transparente...

Corre atrás da luz do dia, contradição, transgressão.



Celebra, coração!

Me renova, evoca o eterno, sopra aragem/melodia,

Anda, andante, presto, allegro, nota em vida desafia,

Incendeia coração, delicatta sinfonia

Se revela na canção...Celebra, coração!



Gaiô



Karena Karras




ALIANÇA


Eu e você somos UM,
Quero fazer aliança
que nos una em diferenças.
Nos una e diferencie em dualidade perfeita:
Eu sou eu, você é você.
Eu comigo, com você, com o outro, a natureza
vegetal, animal, sideral, abissal,
harmonia elemental.
Eu e você somos UM...
Abre espaço pro terceiro,
em mistério transcendente,
que nos une em diferenças,
Sem fusão.
Pois fusão em profusão,
não gera aliança não,
Sai da via amorosa,
só gerando con-fusão.

Gaiô.


Karena Karras





Lembranças...

E celebro a vida nos sonhos de menina,
em olhares que fui juntando
em síntese de emoções...
Momentos em alquimia
com o tempo e o espaço,
em percepções garimpados,
na natureza sem fim de mim.
E revelando quintais, varandas, jardins,
capto a luz em pessoas,
De viver culturalmente, alegria inesquecível,
compondo história sensível,
simples mundo em poesia.
Dialogo com a caipira em que sempre me vi:
a mangueira que plantei, árvores que escalei,
redes, balanços, poças ´d'água, bicharada e fruta boa
que em tudo plantei e colhi.
A moça do interior, sonhos simples, natural,
Bela roça, o estradão, o areal, e o lamaçal.
E tocada pela alma do poeta cantador,
canto o povo, sua memória original,
em toadas, encantada pelas cenas do sertão.
O caboclo brasileiro,
seus mistérios, lendas, mitos,
"causos", rezas, procissão,
ladainhas, cantilenas, os benditos,
capoeiras, as folias, arrasta-pé,
bailes, festas com leilão.
E nos cantos de trabalho,
louvo o justo São José.
Sinto a perda da varanda,
da janela escancarada,
lua entrando pelo chão,
Das conversas na calçada
sem tempo pra terminar.
Olho o muro, arranha-céus,
isolamento e solidão.
Comunhão revelada ao coração,
dá a tudo já vivido, seu caráter universal.
Quero o pão de todo dia,
no agora vivenciar.
Dôo à tarde que ora cora,
reverência agradecida,
Louvo os seres, louvo a vida,
minha alma enriquecida,
jeito novo em celebrar.

Gaiô.