Valentin Rusin






Valentin Rusin










Vamos fazer uma coisa:
escreva cartas doces e azedas
Abre a boca, deusa
Aquela solenidade destransando leve
Linhas cruzando: as mulheres gostam
de provocação
Saboreando o privilégio
seu livro solta as folhas
Aí então ela percebeu que seu olho corria
veloz pelo museu e só parava em três,
desprezando como uma ignorante os outros
grandes. E ficou feliz e muito certa com a
volúpia da sua ignorância. Só e sempre procura
essas frases soltas no seu livro que conta história
que não pode ser contada.
Só tem caprichos
É mais e mais diária
– e não se perde no meio de tanta e tamanha
companhia.


Ana Cristina Cesar



Valentin Rusin


Declaração do artista


POR UM LONGO TEMPO EU PROCUREI PELO QUE SE CONVENCIONOU CHAMAR DE ESTILO INDIVIDUAL DE CADA ARTISTA. ISSO TOMOU MUITO TEMPO, POIS EU NÃO QUERIA ME LIGAR MECANICAMENTE A UM ESTILO OU OUTRO. EM MINHA OPINIÃO, ESSA LIGAÇÃO PODE LIMITAR MUITO O ARTISTA. FINALMENTE, CHEGUEI À CONCLUSÃO QUE ESTILO NÃO É UMA COLEÇÃO DE PROCESSOS TÉCNICOS, MAS UMA CERTA MANEIRA DE PENSAR. NA SUPERFÍCIE, MINHAS PINTURAS SÃO CLARAS E SIMPLES, MAS PODE-SE ENTENDÊ-LAS DE VÁRIAS MANEIRAS: A PRIMEIRA DÁ A POSSIBILIDADE DE ADMIRAR A VIDA IMÓVEL OU UMA PAISAGEM. A SEGUNDA É UM JOGO PARA O OBSERVADOR QUE PODE RECONHECER OS SÍMBOLOS CULTURAIS DE ÉPOCAS MUITO DIFERENTES. TAMBÉM É POSSÍVEL QUE ALGUÉM ENCONTRE ELEMENTOS DE TEORIAS FREUDIANAS. EU ACHO QUE OBJETOS ÓTICOS NÃO TÊM GRANDE IMPORTÂNCIA SE FICAREM SOZINHOS, MAS APENAS QUANDO ENTRAM EM CONFLITO, EM SITUAÇÕES POUCO COMUNS. TAIS COMBINAÇÕES CHEIAS DE SUSPENSE SÃO CRIADAS PELO ARTISTA. FORMAS TRADICIONAIS SÃO MUITO ACEITÁVEIS COM ESTA FINALIDADE, POIS POR CONTA DESSES LIMITES TÃO ESTREITOS NOSSA FANTASIA PODE SER ESTIMULADA DO MODO MAIS FÁCIL. QUANDO UM SIGNIFICADO APARECE UM NOVO MUNDO SE FORMA; E O OBJETIVO É ALCANÇADO.

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SETE CHAVES

Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha
grande história passional, que guardei a sete chaves,
e meu coração bate incompassado entre gaufrettes.
Conta mais essa história, me aconselhas como um
marechal do ar fazendo alegoria. Estou tocada pelo
fogo. Mais um roman à clé?
Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher
moderna.
Nem te conheço.
Então:
É daqui que eu tiro versos, desta festa – com
arbítrio silencioso e origem que não confesso –
como quem apaga seus pecados de seda, seus três
monumentos pátrios, e passa o ponto e as luvas.


Ana Cristina Cesar


Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cruz Cesar, nasceu no Rio de Janeiro em 2 de junho de 1952  e faleceu Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1983, ou ainda simplesmente Ana C., foi uma poetisa brasileira, uma das principais da geração mimeógrafo da década de 1970.
Filha do sociólogo e jornalista Waldo Aranha Lenz Cesar e de Maria Luiza Cruz, Ana Cristina nasceu em uma família culta e protestante de classe média. Criou-se entre Niterói e Copacabana, tendo estudado no então Colégio Bennett.
Antes mesmo de ser alfabetizada, aos quatro anos de idade, ela ditava poemas para que sua mãe os escrevesse. Em 1969, Ana Cristina Cesar viajou à Inglaterra em intercâmbio e passou um período em Londres, onde travou contato com a literatura em língua inglesa. Quando regressou ao Brasil, com livros de Emily Dickinson, Sylvia Plath e Katherine Mansfield nas malas, dedicou-se a escrever e a traduzir, entrando para a Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), aos dezenove anos.  
Ana Cristina Cesar começou a publicar poemas e textos de prosa poética na década de 1970 em coletâneas, revistas e jornais alternativos. Seus primeiros livros, Cenas de Abril e Correspondência Completa, foram lançados em edições independentes. As atividades de Ana Cristina não pararam: pesquisa literária, um mestrado em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), outra temporada na Inglaterra para um mestrado em tradução literária (na Universidade de Essex), em 1980, e a volta ao Rio, onde publicou Luvas de Pelica, escrito na Inglaterra. Em suas obras, Ana Cristina Cesar mantém uma fina linha entre o ficcional e o autobiográfico.
Cometeu suicídio aos trinta e um anos, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um edifício da Rua Tonelero.




 

Valentin Rusin










Nada, Esta Espuma


Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco 
quero tanto os seios da sereia.


ANA CRISTINA CESAR


Valentin Rusin









Aventura na Casa Atarracada


Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora, 
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.


ANA CRISTINA CESAR

Valentin Rusin








é muito claro
amor
bateu
para ficar

nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo 
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama


ANA CRISTINA CESAR

Valentin Rusin








Quando entre nós só havia
uma carta certa
a correspondência
completa
o trem os trilhos
a janela aberta
uma certa paisagem
sem pedras ou
sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água 
a espera do café


ANA CRISTINA CESAR

Valentin Rusin







Encontro de Assombrar na Catedral


Frente a frente, derramando enfim todas as
palavras, dizemos, com os olhos, do silêncio que
não é mudez.
E não toma medo desta alta compadecida
passional, desta crueldade intensa que te
toma as duas mãos.


ANA CRISTINA CESAR


Valentin Rusin









A Ponto de Partir
 

A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso, e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.


ANA CRISTINA CESAR



Valentin Rusin










Um Beijo


que tivesse um blue.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
"what's new"
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo.


ANA CRISTINA CESAR