Emilia Castañeda






Emilia Castañeda








FRAGILIDADE



Fragilidade há no orvalho,
sob o Sol da manhã.

Fragilidade há na noite escura,
sem vaga-lume e sem Lua.

Fragilidade há no banhista,
que não respeita o Mar.

Fragilidade há no doente,
sem família e sem plano de saúde.

Fragilidade há naquele que possui muitos tetos,
quando nega um simples abrigo.

Fragilidade há naquele,
que nega um pão ao faminto.

Fragilidade há na velhice,
sem aposentadoria digna.

Fragilidade há no menino de rua,
“alimentado de pedra”...

Fragilidade há na Flor,
abandonada num canto qualquer.

Fragilidade há no bem-querer,
Quando não é amor.


Ysolda Cabral

Emilia Castañeda


Emilia Castañeda nasceu em Madri em novembro de 1943. Três anos mais tarde, sua família se muda para Barcelona, onde residirá a maior parte de sua vida. "Despertei para a arte - afirma - ao mesmo tempo em que para a vida: suponho que a isso se chama vocação. A princípio, era uma busca intuitiva, já que carecia por completo de conhecimentos pictóricos. A arte, para mim, era una dimensão puramente estética, e assim segue sendo". Estudou na Escola de Víctor Esteban Ripaux, além de recebe aulas particulares de desenho, às quais sempre dedicou um interesse especial. O período de formação, no qual vai obter conhecimentos técnicos e as bases imprescindíveis sobre espaço, tempo, perspectivas e estrutura, vai de 1956 a 1966.
Sua obra recebe, nos primeiros anos, influências de tipo impressionista e fauvista. Em 1973 celebra sua primeira exposição individual na Galeria Lleonart de Barcelona, apresentando vinte e seis obras e quatro desenhos em carvão.









GRANDE MENTIRA



Nas ruas desertas,
Lavadas de chuva;

Uma saudade me resta.

Na pintura das casas,
De fachadas serenas;

Uma saudade me resta.

Na melancólica manhã,
De um lugar qualquer;

Uma saudade me resta.

No cheiro da terra molhada,
Pronta para o plantio;

Uma saudade me resta.

No silêncio que paira no ar,
Perturbado pelo som

Dos saltos dos meus sapatos;
Uma saudade me resta.

Na solidão dos caminhos,
Viajando sem receio pro passado;

Nenhuma saudade eu trago.


Ysolda Cabral

Uma pessoa que chora e ri de alegria, tristeza, ou saudade sem nenhum pudor.

Ysolda Cabral


 

Emilia Castañeda










SONHO DE VERÃO



Dias quentes e lindos...
Saudade aplacada de você.

No coração a certeza,
De nunca mais lhe perder.

Noites calmas,
Sem pesadelos toscos,
Plenas de amor e de descanso.

Amanhecer feliz, repleto de luz,
E de esperança...

Sair por aí...,
Sem destino, sem desatino.

Sentir o Vento no rosto,
Segurar sua mão e seguir...



Ysolda Cabral

Emilia Castañeda








MÁGICO POR DE SOL



O olhar no infinito do nada,
Passa pra gente toda a inutilidade,
Dos enfeites como um rio sem vida.

Conceito de belo é elo pra enganos,
De sonhos vãos que, na medida do tempo,
Simplesmente destrói quaisquer planos.

Querer mudar tudo isso é impossível!
E o entardecer da vida se faz presente,
Em cada pedacinho da gente.

O olhar continua lá...
Lindo! Lindo!
Preso ao mágico Por de Sol,
Na espera de uma linda Noite Calma.


Ysolda Cabral

Emilia Castañeda








NÃO HÁ LUGAR Q'EU QUEIRA IR



Em delírio minha alma vaga,
Com desalento e muita dor,
Sem esperança de encontrar,
Amigo puro com ou sem cor.

Se você encontrar alguém assim,
Por favor, me diga e me apresente,
Pode ser o Cristo que chegou aqui.

Será possível que só a morte,
Realize sonhos e planos,
Ou é simplesmente sorte;
Como teve o casal Ghost!?

Neste Carnaval sairei de alma penada,
Vestida de mortalha a pular desvairada,
E se eu cair, não ligue e me deixe ali.
Pois não há mais lugar q’eu queira ir.



Ysolda Cabral

Emilia Castañeda








COLANDO PEDAÇOS


A folia do Bloco da Jia passa.
Quem será o guia
De tanta alegria?!

O trio toca um frevo rasgado,
A multidão esquece a tristeza,
Pulando enlouquecida pelas ruas,
Do bairro da Boa Viagem...
- Ah, saudade!

O calor é de mais de trinta graus,
Em pleno domingo à tarde.
E ainda nem é carnaval!

Estou só com minhas dores...
A sensação de perda machuca,
E o dia perde suas cores.

Procuro a máscara e a fantasia,
Que também não foram usadas,
No carnaval passado...

E, ao encontrá-las destroçadas,
Não me surpreendo e sorrio,
Afasto o desânimo e o cansaço,
Colando de qualquer jeito os pedaços.



Ysolda Cabral

Emilia Castañeda







APENAS RESTOS


No frasco, restos de perfume...
Essência.

No diário, restos da rosa...
Significativas marcas.

Na pele pálida...
Restos de beleza clássica.

Na terra...
Restos mortais.

Na alma, amor sem saudade...
Vida!


Ysolda Cabral

Emilia Castañeda







LUCIDEZ INSANA


Depois de longa espera,
Ansiosa e intensa,
A paixão a revela.

Trêmula de saudade,
Uma saudada doída, mas bela,
Até lhe completa...

E nos preparativos do reencontro,
Planeja, sonha, espera...

De repente a lucidez dita à regra.

Você chora, entristece, emudece,
E, obediente... Impotente...
Abre mão da quimera...

Continuar seu caminho,
Indiferente e inerte,
É apenas o que lhe resta.


Ysolda Cabral

Emilia Castañeda







METÁFORAS


Não sabia que a tristeza doía tanto
Não sabia que o silêncio poderia incomodar
Não sabia que o desânimo tirava sono
Não sabia que o dia custasse a passar

Não sabia que não sabia de nada
Só sabia que sabia mais sorrir que chorar.

Sabia que um dia especial iria chegar
Sabia que todos os meus sonhos ele iria levar
Sabia que a indiferença poderia matar
Sabia que o inusitado não poderia alcançar

Sabia que não sabia de nada
Agora só quero saber de chorar

Amanhã é outro dia...

O Sol me fará novamente levantar
Fico agora a pensar: e se amanhecer chovendo...?
E eu mesma me respondo: você ficará na cama
E nela permanecerá até que a chuva vá pra outro lugar.

Não sabia que não sabia de nada
Agora só quero saber de dormir pra sonhar.


Ysolda Cabral

Emilia Castañeda








METÁFORAS - II


Por adorar meu amor inventado,
Hoje lhe mando um recado,
Cujo cabeçalho começa assim:

Por aqui o dia amanheceu
Muito firme e muito forte,
Exatamente como eu.

E continuo...

Mesmo estando de saudade febril,
Fui caminhar e logo percebi,
Que do canto não saí.

Tentei levantar e foi em vão.
A cabeça doía e os braços também.
As pernas não obedeciam,
E foi assim que começou o meu dia.

De repente muita raiva me deu,
E de um pulo levantei.
Resultado: fui parar no chão frio,
O qual me arrefeceu.

E agora estou aqui,
A lhe escrever estas linhas,
Só pra dizer que, pode não parecer,
Mas ainda amo você.



Ysolda Cabral