Margarida Cepêda






Rosa

No meu mundo rosa você caiu, de repente.
Nesta cor que me mata um átimo e um instante.
Uma cor e um semblante a esfera do que é capaz,
O amor que satisfaz as memórias do que nunca vi.

Nesta palha rosa o amor feitio cruza laços, anuncia navios.
Neste perfil cremalheira a lenha insiste em fulgir rostos pequenos.
Na enseada da tarde o perfeito ideograma inacabado, o amor rosa, o amor prosa.
Neste perfil em pavio, direção sem fuligem, sem formol, sem divisas.

Nesta esfera enorme, meu canto de festa, de reza que enlaça.
No teu perfil, o nome, a sesta, o embate, o encontro, dos meus olhos nos teus.
A esfera, a testa, a promessa, o filho que não partiu, o amor em adornos infantis.

O encanto, a floresta o amor, o tom inacabado, o encanto...!
Suave e sutil, em teus braços adormeceu, no entanto!



Kátia Torres Negrisoli




Margarida Cepêda





Cantinela

S'imbora entoar uma canção de ninar gente grande
Embalar os sonos de breves instantes.
Passear em teus olhos, pernoitar em tuas faces,
Cantando ajeitados os derradeiros.

E nesta cantilena preservar o tempo,
Configurar a névoa, em frias cadências,
Identificar o gosto, o álacre formado
Na açucena que reverbera no teu céu palatal.

E cantando e vociferando o cântico
Cantar-te-ei ligeiro e embalar-te-ei docemente,
Observando o balançar da cortina,
Deixando as réstias ornadas de sol
na frágua manhã, ainda, primaveril!
Ornar os teus lábios, os teus seios, teus navios.

Há um sabor álacre, há um adocicado.
Há o som do vento.
O imaginar-se, o fechar de olhos,
O barulho tênue que atravessa a vidraça.
Há o teu semblante, a rua, as alamedas.
Há o teu perfume sutil atravessando esquinas.
Há o citrino da manhã de abril.
E também o desmaio um quase febril. Um encanto. Uma atmosfera.

Há o adormecer, o pertencer a esta imagem evocada do acaso.
Da plena e intempérie bonança.
A palavra, a miragem. Há a fim a risada, o vinho decorado de champagne.
Sem ornelas, sem azeitonas, há cerejas.

Há as ligeiras, as farpas, as domingueiras, as muitas manhãs do teu nome, os muitos desdobramentos de menina um tanto.
Há neste algoz um bom dia, neste trato tua tinta, neste abraço tua menina, uma jardineira em flor. Uma camélia desmaiada, uma figura, um traço, um perfil. Um sobrancelho, um cartaz, um aviso.

Há esta parada que não se sente.
Doce lado envolvente e a canção.
Que fica a martelar, a canção alegre. A canção.
Só há canção. Só há canção. Só há canção.

Só há ... muita festa, muito jeito, muita ligeireza, esnobando a estreiteza.
Um teu pensamento em meu volátil verso.
O meu acamado e doce espanto, o ar de abril adamantino.
A espetacular presença de uma mesma outra vez mais jogada aqui, metaforizada na cantiga e neste luto adormece,
Uma paz e ... apraz.



Kátia Torres Negrisoli





Margarida Cepêda



Fernando Pessoa





É noite, é noite certa...
Nesta noite preciso voar...

É noite, é noite deserta,
Nesta noite preciso buscar...

Estas flores são ofertas raras
Estas flores são simples ofertas.
Você pode ficar com elas de cara.
Ou pode, na medida, descartar.

'Uma rosa com amor'
Um chavão em muita cor...



Kátia Torres Negrisoli



Margarida Cepêda





Oração da Kátia




Deus Pai, livra-me dos loucos
Dos que aos poucos destilam seus venenos
São serpentes em dia pleno.
Desfilam seus bordados para inflamar igual teor.
Instigam a fala atrita para dar-lhes a desdita.

Deus Pai, livra-me dos desgraçados, dos ignorantes, da miséria.
Livra-me da incoerência, da demência, da indecência.
Em teu nome um pedido, um clamor estendido.
Proteja-me dos assassínios verbais, da maledicência, da língua torta, da inveja, da preguiça, da malícia...

Leva-me por teus vales e veredas. Faz-me repousar em tuas verdes campinas. Dá-me da tua flor, da tua água, do teu clamor.
Que a tua música seja a única a se ouvir, que o som dos insensatos se cale nesta hora!

Chega de consumir...

Deus, pai meu Deus. livra-me do inferno, dos loucos, da insensatez... livra-me do Orkut e de tanta estupidez!



Kátia Torres Negrisoli