Almada Negreiros












CANÇÃO DA SAUDADE


Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gêmea que nasceu sem vida, e amo-a a fantasiá-la viva na minha idade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemitérios — as lajens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.




Almada Negreiros



Almada Negreiros






Ciúmes

Pierrô dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d'elle passam sede, não n'o acordem ao beber.

Uma
andorinha travessa, linda como todas, voa brincando rente á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Ele acorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atrás, não venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes, mas, porque ele se queda, de novo volta em zig-zags travessos e chilreios de troça. E chilreia de troça, muito alto, por cima d'elle. Pierrot já se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de novo.

De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos, seus olhos foram tão longe, tão longe como a
andorinha fugida nos montes.

De repente viu-se cego - os dedos finíssimos da Colombina brincavam com elle. Desceu-lhe os dedos aos lábios e trocou com beijos o aroma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja, á laia de brincos com jóias de carmim. Rolaram-se na relva e uniram as boca, e já se esqueciam de que as tinham juntas...

- Sabes? Uma
andorinha...

E foram de enfiada as graças da ave toda paixão.
Pierrot contava entusiasmado, olhando os montes ainda em busca da andorinha, e Colombina torceu o corpo numa dor calada e tomou-lhe as mãos.

Havia na relva uma
máscara branca de dor, e a lua tinha nos olhos claros um olhar triste que dizia: Morreu Colombina!



Almada Negreiros,

in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'


Almada Negreiros



Ponto de Bauhütte:



Um ponto que está no círculo
E que se põe no quadrado e no triângulo.
Conheces o ponto? tudo vai bem.
Não o conheces? tudo está perdido.



Almada Negreiros