NEMM SOARES







Ai, meu bom amigo,
Este peito é ninho
De amor tecido.
É suave arminho.
Ternura e calor.
Trama dos sentidos.
Delegada figura
Queira Deus que o tempo
Me dê a aventura
Tranqüila, e o alento
Como dá ao vento,
Ao ver-vos folgar.


Pois cumpro mor pena
Se não sois comigo
Por fora, serena,
Na alma, castigo.


Cantigas de amigo
Eu vou lamentando
Tristeza comigo
Está me penando.



Myriam Coeli


NEMM SOARES








Senhora de mui castelos
Não de pedras ou de ameias.
Castelos flutuando no ar
Ou inconstantes nas areias.
Uns bizarros, outros belos.
Ventos uns a velejar.


Com as traves destravadas
Destravo traves que envergam
Duras portas envergadas
— Palavras ensangüentadas
Celas que da língua selam
Pelo espanto fustigadas.


Edifício que me rasga
Do almo a alma o almar
E me dá triste degredo
Vigésimo segundo andar
Masmorra que amortalha
Com capuz de asfalto e medo.
Que me preservem os átomos
Na construção dos castelos
E inventos não os desfaçam,
Nem drama urdido em um átimo
Ou o progresso que é o elo
Monstro de nossa desgraça.


Artefatos coloridos
De plásticos, aço e isopor.
Tudo aquém de minha janela
Só traz solidão e dor.
Pesam fardos sem sentido.
Senhor, dividir pudera!


Que outros castelos sonhados
(Que castelos, meu senhor!).
Só pássaros, nuvens, plumas,
Mais belos que o de Almançor,
Já no tempo arrebentados
Com anjos, flores, escumas.


Vigésimo segundo andar
É castelo muito alto
Jaz entre Oriente e Ocidente
E se me seduz um salto
Convosco não vou ficar
Mas manchete, certamente.




Myriam Coeli


NEMM SOARES



Neste engano que é o tempo
Eu caminho. Eu me colho.
Meu trovar, travo, recolho.
Ferida viva eu me agüento.



Neste desdouro eu me encontro
E teço minha parábola
Em tear de silêncio e sôbola
Que, tecendo em nu, confronto.



Com que sem ser, poderia.
Assim caminho, assim canto.
Amor, pena que descanto
Que amante só ousaria




Myriam Coeli