Lisa Falzon








A TERRA



Menino índio, se estás cansado
tu te recostas sobre a Terra,
fazes igual se estás alegre,
filho meu, brinca com ela...



Ouvem-se coisas maravilhosas
ao tambor índio da Terra:
ouve-se e o fogo que sobe e desce
buscando o céu, e não sossega.
Roda e roda, ouvem-se os rios
em cascatas que não se contam.
Ouve-se mugir os animais;
ouve-se o machado comer a selva.
Ouvem-se soar teares índios.
Ouvem-se trilhas e se ouvem festas.



Onde o índio o está chamando,
o tambor índio lhe responde,
e tange perto e tange longe,
como o que foge e que regressa...


Tudo toma, tudo carrega
o corpo santo da Terra:
o que caminha, o que dorme,
o que se diverte e o que pena;
e leva vivos e leva mortos
o tambor índio da Terra.


Quando eu morrer, não chores, filho:
peito a peito junta-te a ela
e se dominas o teu fôlego
como que tudo ou nada sejas,
tu escutarás subir seu braço
que me tinha e que me entrega
e a mãe que estava partida
tu a verás tornar-se inteira.




Gabriela Mistral

Lisa Falzon






A CHUVA LENTA



Esta água medrosa e triste,
como criança que padece,
antes de tocar a terra,
desfalece.



Quieta a árvore, quieto o vento,
e no silêncio estupendo,
este fino pranto amargo,
caindo!



O céu é como um imenso
coração que se abre, amargo.
Não chove: é um sangrar lento
e longo.



Dentro de casa, os homens
não sentem esta amargura,
este envio de água triste
da altura;



Este longo e fatigante
descer de águas vencidas,
até a Terra jacente
e transida.




Chove... e como um chacal trágico
a noite espreita na serra.
Que vai surgir na sombra
da Terra?



Dormireis, enquanto fora
cai, sofrendo, esta água inerte
esta água letal, irmã
da Morte?

Gabriela Mistral

Lisa Falzon




***

Seu nome é hoje

Somos culpados
de muitos erros e faltas
porém nosso pior crime
é o abandono das crianças
negando-lhes a fonte
da vida

Muitas das coisas
de que necessitamos
podem esperar. A criança não pode

Agora é o momento em que
seus ossos estão se formando
seu sangue também o está
e seus sentidos
estão se desenvolvendo

A ela não podemos responder “amanhã”
Seu nome é hoje.

Gabriela Mistral

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

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