Andrew Atroshenko


 

 

 

 

Fracasso no amar

Desculpe o meu fracasso no amor
Não queria ser assim
Mas sou.

Desculpe minhas palavras tristes
Os meus olhos quentes de muitas lágrimas
E minhas poesias de poucas leituras

Desculpe a minha crueldade com meu ser
A minha incompetência em ter
Desejo a diferença, mas sou pouco e cansado para seguir

Desculpe se em minha vida insignificante não posso lhe oferecer músicas
Tenho muitas mágoas
Perdas e danos de partidas inacabadas

Desculpe minha paixão
Meus sentimentos desaforados
Minha vontade de arrancar os seus olhos

Desculpe, mas esta será a minha última poesia para você
Não posso ser a pedra no caminho
O sinal que não se abre

Desculpe então pela minha ansiedade
Pela despedida acertada
E dos sentimentos que ficarão em vão

Desculpe não suportar ver o seu rosto com (em) outro
E as fagulhas de seus olhos que desejo comer
Abraçar e cantar como se tivessem nascidos somente para observar o meu amor por ti.


Lúcio Alves de Barros


Andrew Atroshenko



 

 

 

 


Para lá e para cá

Quando a vi descer
Andando sem ver
Caichinhos para lá
Caichinhos para cá

Era um leve amanhecer
Os cabelos, véu do rosto, tapavam os seus olhos a entristecer
E ela caminhava com caichinhos para lá
Caichinhos para cá

Não era possível perceber o soslaio
Então me contorci como um balaio
E ela menosprezando com caichinhos para lá
Caichinhos para cá

No seu constante e amável balançar
A felicidade me entorpeceu, com vontade de amar
Ela nem ligou com caichinhos para lá
Caichinhos para cá


Gostei da chuva que iniciou a pingar
E orei a São Pedro para ela olhar
Ela olhou para trás e, risonha, começou a balançar os caichinhos para lá
Caichinhos para cá

Meu coração começou a soprar
Minha alma a delirar ao vê-la em sua casa entrar
Caichinhos para lá
Caichinhos para cá



Lúcio Alves de Barros

Andrew Atroshenko



 

 

 

 

 
Em meio à liberdade

Bons sentimentos não podem estar longe da liberdade
Se não existe liberdade, não há sentimentos
Se inexistir a liberdade, não há amor.

Tanto na liberdade, como no amor, há dor
Como no amor, na liberdade há terror
Liberdade é incerteza
Amor é a incerteza eterna

Desconfio que seja por isso que temos medo
Amar é doar, e toda doação tem o seu custo
A liberdade, ao contrário do amor, não tem preço
Com ela, também não se vai longe sem o amor

Tanto o amor como a liberdade são sentimentos inegociáveis,
Impossíveis de mensurar
Passam longe das máquinas de calcular,
dos computadores de última hora, economistas e bajuladores de plantão.

Amar com liberdade é sofrer as conseqüências
da incerteza
da solidão
do medo
do inexistente...

Amar com liberdade é sofrer as conseqüências
da mansidão
do ombro amigo
da paixão
do existente...

Aos seres humanos cumpre a escolha: “Amar é demasiadamente humano”




Lúcio Alves de Barros


Andrew Atroshenko



 

 

 

 


DO SUSTO NOSSO DE CADA DIA


O sentimento que me assusta voltou a incomodar
Toca-me como as lágrimas da chuva
O veneno do vento, o gosto da boca que beijei...

O sentimento assustador que me retirou o sono
Lembrou-me do pequenino beija-flor e da pedra solitária no jardim
Dos banhos de chuva quente no verão e dos carrinhos de rolimã do passado.

O sentimento assustador acordou-me do sono dogmático da razão
Jogou por terra minhas emoções e mostrou-me a humanidade
Na dureza da vida que me persegue, nos montes e sacos cheios de areia que carrego na vida, a leveza se fez presente e pensei na vida que perdi, e na vida que tenho a ganhar.

Quanta ansiedade em um coração
azul
Quanto medo no coração amarelo...
No jogo das cores do passado ando derrotado ante a impossibilidade de tocar a felicidade,
Sentir os dedos e beijar novamente os lábios que fortemente mordi.




Lúcio Alves de Barros


Andrew Atroshenko



 

 

 

 


Contradições amorosas


Você, no alto dos seus belos olhos, diz ter medo
Eu, abaixo de sua linha da cintura, digo... eu sou o medo

Você, plantada na experiência, de uma longa vida, diz que sofreu
Eu, ainda cambaleante em meu triste corpo, digo que sangrei

Você, alinhada em seu perfil de estrela, afirma que chorou
Eu, mascarado em minha face de aço, saliento que me desmanchei em lágrimas

Você, ser sedento de paz e ternura, diz amar
Eu, impaciente e temeroso, digo ter dificuldades em entregar, arriscar e doar

Você, na intensidade de sua ansiedade, busca a felicidade
Eu, entregue às minhas eternas limitações, me apego à realidade.

Você, altiva e bonita, diz Sim e Não
Eu, cansado e sem esperanças, digo Não e Sim.



Lúcio Alves de Barros


Andrew Atroshenko



 

 
 

 


  
VIVER NÃO É PARA PRINCIPIANTES

Sou errante
Problemas nenhum com isso
A vida não dá trégua
Não passa de lembranças, amizades e amores destruídos com o tempo

A vida não oferece o seio da mãe
Quando se vê, já foi...
Acordado, prefiro o adormecer
Adormecido, logo sou abatido pela insônia

Poucos esperam
Tudo é rápido, sem tempo e escolhas definidas
Deram ADEUS à paciência
Não aguardam o abaixar das poeiras

A vida é efêmera
Espanca com força
Esperanças se vão
Vive-se de uma falsa perseverança e aplaca-se a falta em um outro

Errando na vida dos que procuram somente a felicidade
Principiante no enredo doméstico e das intimidades
Mentimos para nós mesmos
E me afogo na realidade, pois temos medo do assombrado passado

A vida não dá trégua
A vida é efêmera
A vida não oferece seio
A vida não é para principiantes



Lúcio Alves de Barros

outubro de 2007




Andrew Atroshenko



 

 
 

 


Saudades sem fim

Desejo retornar ao útero materno

Local quente, protegido, amado e cuidado

Tenho saudades das mãos sobre minha cabeça e o arranjar do meu corpo

Dos sonhos que ouvia e dos amores dos quais fui cúmplice e coadjuvante

Tenho direito de ter saudades das canções de ninar e das orações suplicantes

Tenho saudades das batidas do coração dela

Do funcionamento dos órgãos e dos desejos

Saudades de mim e dela fora de mim

Saudades da espera ansiosa e, por vezes, paciente de minha chegada

Eu cheguei

Ela se foi

De tudo sobrou o muito da memória viva do meu complexo

E da sempre eterna e inexorável vontade de novamente fazer parte dela.




Lúcio Alves de Barros

Feliz Natal! Feliz Ano Novo!





Sergio Niculitcheff

***

Sergio Niculitcheff



 

 

 

 


Árvore de Natal.
Feliz Natal!



Na árvore de Natal
De minha infância,
Pedrinhas-estrelinhas
De brilhantes,
Geradas nas entrelinhas
Da rua do bosque
De mim criança,
Refazem sonhos de ternura doce,
Como se fossem
Brilhos mágicos de estrelas cadentes...
De repente,
dependuradas,
Apontadas felizes, sorriem.
E de mãos dadas...
De viés pro meu olhar,
Alimentam meu anjo solitário,
De harmoniosa convivência amorosa.
Se derramam em gestos solidários...
Se olham, se abraçam, se beijam,
Transformam a mais pura solidão,
No mais aconchegado coração...
E na rua do bosque de mim agora,
Jeito novo de olhar, cantar, dançar,
Jeito novo de aceitar...
Acolher...AMAR...


Gaiô

 Cida Gaiofatto

Sobre mim.



......Em compasso de silêncios, entremeando acasos, destinos e destinação, vou indo e vindo, no outro, na vida, em busca de mim...
Já me vale a sensação de estar aqui a cada instante, sem definições precisas, pois que nada sou, a não ser a luz e a escuridão que se alternam na busca do ser...no estar...aqui...em qualquer lugar...
Educadora aposentada, cidadã paulista de Ribeirão Preto, S.P., três filhas e João, meu grande incentivador, de modo a ir em busca de mim mesma através da expressão artística. Pedagoga pós graduada, me trouxe ao mundo sensível das Artes Visuais cuja formação me despertou ao desenho  e pintura, escultura com as quais participei de várias exposições e premiações enquanto cursava a faculdade.Entretanto a educadora e mãe, impossibilitada de perseverar nesta busca, acabou se afastando da participação ativa das atividades pertinentes às expressões plásticas, a não ser no exercício de artista da vida no convívio familiar.Complementando, textos poéticos sempre acompanharam suas Artes e aposentada, se viu envolvida, mergulhada na poesia que a tem fascinado. Participou da Antologia Mar de Versos, Ed. Pensata, tendo saído faz pouco, a publicação da Antologia Poética - Volume I - "Vozes da Alma".


Sergio Niculitcheff

 
 
Niculitcheff declara-se essencialmente um pintor que trabalha a pintura sem ter vergonha de ser pintura. O que ele busca é a construção da imagem e a organização das formas. “Sou adepto da manutenção de valores da representação, não me interessa o rompimento de modelos nos quais haja a supressão da imagem. Baseio-me em valores da tradição da pintura; não busco quebra de paradigmas e não me interesso por nenhum tipo de desconstrução da forma, por rupturas da técnica ou de materiais”, explica. Os vários objetos, entre eles aparelhos telefônicos, isqueiros, folhas secas, que compõem uma das instalações, mostram que as lembranças, como diz o próprio artista, são elementos essenciais da poética de Niculitcheff.






 

 

 

 


Cenas da Vida de um Pintor.


Fêz-se o percurso da arte,
em pintura tecida de vida...
Poeta das cores-luz magia respira,
escuta o silêncio...a poesia...
Universo de busca, de si o verso,
de dentro, viscerais caminhos
meditam, oram no ser.
Dialogam, sem precisar o que.
Travessia de um rio de história,
cotidiana memória,
deixa pra trás outra margem.
Da vida unifica e define
desejos de evolução.
Das asas do circo, o teatro,
Fantásticas formas de mitos,
carrega na alma, deuses alados,
imagens bordadas de sonhos.
Revelam refino e nobreza,
Toda a beleza acesa em detalhes,
nascente de um coração.
Perscruta brancas paisagens
que falem do indefinido-in,
substância simples imagem,
claras almas diluidas...MIRAGEM!
Transcendendo aflora essência,
densidade pictórica
dilui, toda idéia do irreal
que do nada faz-se tudo
consistência, flui a mão.
Celebra o criador a experiência
manifesta do artista em percorrer,
no horizonte infinitude
que se abre...
antecede, preconiza,
ele sabe...
Amplitude em ser...


Gaiô.