Soledad Fernández









a semântica das rosas


o signo rosa significa a rosa
a rosa em si mora no mundo
e é no fundo a flor da metaflora
que só floresce nos jardins suspensos
de Platão
(assim, se não se sabe se uma pena
é uma pena ou é uma pena
também nunca se sabe se uma rosa
é uma rosa ou é somente a insígnia
o enigma ou a senha ou a metáfora
significando alguma outra rosa)

em suma, cada signo é uma ponte
entre a palavra, seu império
e cada rosa sempre indecifrada
em seu mistério


Geraldo Carneiro

Lira dos Cinqüent'anos (Editora Relume-Dumará, 2002)

Soledad Fernández







madrigal triste


eu sou como o rei de um país ensolarado
e todos os vadios me devem vassalagem
assim como as mariposas, as sereias
e os moluscos da beira-mar


aos 25 anos decapitei
o busto de meu avô ex-monarca
aboli por decreto a realidade
e abdiquei também de certas pompas


a preguiça infame
jamais me permitiu demarcar
os limites de meu reino
digamos então que confino
ao Sul com o Paraíso
a Leste com o Oceano Atlântico
a Oeste com as ficções selvagens
de José de Alencar
e ao Norte com minha morte


mas tudo isso não me basta (ai de mim)
queria mesmo era colher o grito pleno
da tua alma cheia de tormentos


(maiores informações em Madrigal Triste,
de Charles Baudelaire)


Geraldo Carneiro

Soledad Fernández







o elogio dos soníferos
a Cora Ronai


soníferos eu lanço contra as feras
que me devoram a solidez do sono.
a solidão em si não me apavora.
os outros são o inferno, o purgatório
e às vezes são também o paraíso.
não sei do inverno que virá ou não
virá, ainda não formei juízo.
aliás, juízo sempre me faltou
e há de faltar, espero, até a morte,
esse capítulo da história natural,
contra o qual não farei rebelião.
amparo metafísico? não tenho.
invejo o céu, a dança das esferas,
morro de inveja do Ptolomeu,
vagando a salvo nas cosmologias
com Deus no centro, o resto ao seu redor.
não tenho centro, cetro ou direção.
a mim só não me falta coração


Geraldo Carneiro

Soledad Fernández







filosofia


o tempo é uma ficção criada há pouco tempo.
será desinventada no futuro
onde as rosas prescindem do jardim.
o tempo do relógio é uma miragem
tão irreal quanto qualquer camelo
passando no buraco de uma agulha.
metáforas são flores do pensamento
pensadas para que se possa pressentir
que o tempo é uma aventura aqui, agora
que se eterniza ou sequer agoniza:
se precipita no caos.
o tempo é a flor do caos
de onde as naus nunca regressarão
porque haveria sempre um tempo a mais
entre uma nau e a idéia do seu cais.


Geraldo Carneiro
Balada do Impostor (Editora Garamond, 2006)

Soledad Fernández







a voz do mar



na nave língua em que me navego
só me navego eu nave sendo língua
ou me navego em língua, nave e ave.
eu sol me esplendo sendo sonhador
eu esplendor espelho especiaria
eu navegante, o anti-navegador
de Moçambiques, Goas, Calecutes,
eu que dobrei o Cabo da Esperança
desinventei o Cabo das Tormentas,
eu desde sempre agora nunca mais
cultivo a miração das minhas ilhas.
eu que inventei o vento e a Taprobana,
a ilha que só existe na ilusão,
a que não há, talvez Ceilão, sei lá,
só sei que fui e nunca mais voltei
me derramei e me mudei em mar;
só sei que me morri de tanto amar
na aventura das velas caravelas
em todas as saudades de aquém-mar



Geraldo Carneiro
Balada do Impostor (Editora Garamond, 2006)

Soledad Fernández








a coisa bela



toda beleza é sempre uma alegria.
eu sei, não foi bem isso que o John Keats
                                                             /disse,
mas cada língua escolhe as afeições
e imperfeições que lhe compete ser,
o ser da língua sendo o seu amar
o mar com cada qual sargaço seu
o espaço que se sonha na amplidão
do que se quer mais vasto.
um sonho vai fundando um outro sonho
até talvez um horizonte, ou não.
a palavra inaugura uma alegria
voa     auspicia     pássara
o que passou, o que ainda vai passar
o que se funda agora
e na hora da nossa vida-morte:
o resto só será palavra-além.



Geraldo Carneiro
Balada do Impostor (Editora Garamond, 2006)

Soledad Fernández







os fogos da fala


a fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio

só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção pra cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada de amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma

viva sempre a paixão que me consome
sempre paixão a que me consome viva
paixão a que me consome sempre viva
sempre viva a paixão que me consome
que me consome sempre a paixão viva
que sempre a paixão viva me consome


Geraldo Carneiro

Soledad Fernández







FOLIAS METAFÍSICAS

à flor da língua


uma palavra não é uma flor
uma flor é seu perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestígio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra, não: é só florilégio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor


Geraldo Carneiro

Geraldo Carneiro nasceu em Belo Horizonte, 11 de junho de 1952. É poeta, letrista e roteirista brasileiro. Reside no Rio de Janeiro desde 1955. Geraldo Carneiro ficou conhecido como compositor desde o final dos anos 60, por suas parcerias com o compositor Eduardo Souto Neto, que foram gravadas por diversos intérpretes, dentre as quais a canção “Choro de Nada”, gravada por Vinicius de Moraes e Toquinho, e por Antonio Carlos Jobim e Miúcha.
Como poeta, participou ativamente da geração de poetas da chamada “poesia marginal” (da qual sempre se considerou marginal), tendo estreado em livro quando ainda estudante de Letras na PUC-RJ, em 1974, ao lado dos poetas Cacaso, Francisco Alvim, João Carlos Pádua e Roberto Schwarz, pela coleção Frenesi, à qual o poeta deu nome, inspirado num filme de Hitchcock. Publicou posteriormente os livros Verão Vagabundo, Piquenique em Xanadu, Folias Metafísicas, Por Mares Nunca Dantes, Lira dos Cinquent’anos e Balada do Impostor.
Publicou os livros de prosa Vinicius de Moraes: a Fala da Paixão e Leblon: a Crônica dos Anos Loucos.
Traduziu sonetos de William Shakespeare, na coletânea Sonhos da Insônia.
Na música, foi parceiro de Egberto Gismonti, Astor Piazzolla, Francis Hime, Wagner Tiso, John Neschling, Nando Carneiro e outros compositores, cujas músicas foram gravadas por diversos intérpretes importantes dentro da música brasileira.
Para o teatro escreveu Lola Moreno, parceria com Bráulio Pedroso,Folias do Coração e Apenas Bons Amigos, parceria com Miguel Falabella, Divina Increnca e a Iluminada.
Traduziu A Tempestade, de W. Shakespeare, adaptou Como Gostais, além de Lúcia McCartney, de Rubem Fonseca 1987, Lulu, de Frank Wedekind  e As 1001 Noites. Do mesmo Shakespeare, traduziu ainda Antonio e Cleópatra e Trabalhos de Amor Perdidos.
Como roteirista, escreveu Sônia: Morta & Viva, de Sérgio Waissman, Eternamente Pagu (em parceria com Márcia de Almeida), O Judeu (em parceria com Millor Fernandes). Para a TV, adaptou diversas obras literárias para a série Brasil Especial (entre as quais O Santo que não acreditava em Deus, depois refilmada por Cacá Diegues como Deus é Brasileiro, A Desinibida do Grajaú, Lúcia McCartney e O Compadre de Ogum), escreveu as minisséries Tudo em Cima e O Sorriso do Lagarto.
Participou da criação do programa Tamanho Família e da série Você Decide, da qual foi supervisor de texto. Escreve a série para TV Faça sua História em parceria com João Ubaldo Ribeiro.


 

Soledad Fernández