“A arte é a contemplação: é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que ela também tem uma alma. É a missão mais sublime do homem, pois é o exercício do pensamento que busca compreender o universo, e fazer com que os outros o compreendam.”
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Auguste Rodin
o signo rosa significa a rosa a rosa em si mora no mundo e é no fundo a flor da metaflora que só floresce nos jardins suspensos
de Platão (assim, se não se sabe se uma pena
é uma pena ou é uma pena
também nunca se sabe se uma rosa
é uma rosa ou é somente a insígnia
o enigma ou a senha ou a metáfora
significando alguma outra rosa)
em suma, cada signo é uma ponte entre a palavra, seu império
e cada rosa sempre indecifrada
em seu mistério
Geraldo Carneiro
Lira dos Cinqüent'anos (Editora Relume-Dumará, 2002)
eu sou como o rei de um país ensolarado e todos os vadios me devem vassalagem
assim como as mariposas, as sereias
e os moluscos da beira-mar
aos 25 anos decapitei o busto de meu avô ex-monarca
aboli por decreto a realidade
e abdiquei também de certas pompas
a preguiça infame jamais me permitiu demarcar
os limites de meu reino
digamos então que confino
ao Sul com o Paraíso
a Leste com o Oceano Atlântico
a Oeste com as ficções selvagens
de José de Alencar
e ao Norte com minha morte
mas tudo isso não me basta (ai de mim) queria mesmo era colher o grito pleno
da tua alma cheia de tormentos
(maiores informações em Madrigal Triste,
de Charles Baudelaire)
soníferos eu lanço contra as feras que me devoram a solidez do sono. a solidão em si não me apavora. os outros são o inferno, o purgatório e às vezes são também o paraíso. não sei do inverno que virá ou não virá, ainda não formei juízo. aliás, juízo sempre me faltou e há de faltar, espero, até a morte, esse capítulo da história natural, contra o qual não farei rebelião. amparo metafísico? não tenho. invejo o céu, a dança das esferas, morro de inveja do Ptolomeu, vagando a salvo nas cosmologias com Deus no centro, o resto ao seu redor. não tenho centro, cetro ou direção. a mim só não me falta coração
o tempo é uma ficção criada há pouco tempo. será desinventada no futuro onde as rosas prescindem do jardim. o tempo do relógio é uma miragem tão irreal quanto qualquer camelo passando no buraco de uma agulha. metáforas são flores do pensamento pensadas para que se possa pressentir que o tempo é uma aventura aqui, agora que se eterniza ou sequer agoniza: se precipita no caos. o tempo é a flor do caos de onde as naus nunca regressarão porque haveria sempre um tempo a mais entre uma nau e a idéia do seu cais.
na nave língua em que me navego só me navego eu nave sendo língua ou me navego em língua, nave e ave. eu sol me esplendo sendo sonhador eu esplendor espelho especiaria eu navegante, o anti-navegador
de Moçambiques, Goas, Calecutes, eu que dobrei o Cabo da Esperança desinventei o Cabo das Tormentas, eu desde sempre agora nunca mais cultivo a miração das minhas ilhas. eu que inventei o vento e a Taprobana, a ilha que só existe na ilusão, a que não há, talvez Ceilão, sei lá, só sei que fui e nunca mais voltei me derramei e me mudei em mar; só sei que me morri de tanto amar na aventura das velas caravelas em todas as saudades de aquém-mar
toda beleza é sempre uma alegria. eu sei, não foi bem isso que o John Keats
/disse, mas cada língua escolhe as afeições e imperfeições que lhe compete ser, o ser da língua sendo o seu amar o mar com cada qual sargaço seu o espaço que se sonha na amplidão do que se quer mais vasto. um sonho vai fundando um outro sonho até talvez um horizonte, ou não. a palavra inaugura uma alegria voa auspicia pássara o que passou, o que ainda vai passar o que se funda agora e na hora da nossa vida-morte:
a fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção pra cantar as graças as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada de amor:
essa outra voz quase jazz que subjaz ventríloqua de si mesma
viva sempre a paixão que me consome sempre paixão a que me consome viva paixão a que me consome sempre viva sempre viva a paixão que me consome que me consome sempre a paixão viva que sempre a paixão viva me consome
uma palavra não é uma flor uma flor é seu perfume e seu emblema o signo convertido em coisa-imã imanência em flor: inflorescência uma flor é uma flor é uma flor (de onde talvez decorra
o prestígio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador) a palavra, não: é só florilégio ficção pura, crime contra a natura por exemplo, a palavra amor
Geraldo Carneiro
Geraldo Carneiro nasceu em Belo Horizonte, 11 de junho de 1952. É poeta, letrista e roteirista brasileiro. Reside no Rio de Janeiro desde 1955. Geraldo Carneiro ficou conhecido como compositor desde o final dos anos 60, por suas parcerias com o compositor Eduardo Souto Neto, que foram gravadas por diversos intérpretes, dentre as quais a canção “Choro de Nada”, gravada por Vinicius de Moraes e Toquinho, e por Antonio Carlos Jobim e Miúcha.
Como poeta, participou ativamente da geração de poetas da chamada “poesia marginal” (da qual sempre se considerou marginal), tendo estreado em livro quando ainda estudante de Letras na PUC-RJ, em 1974, ao lado dos poetas Cacaso, Francisco Alvim, João Carlos Pádua e Roberto Schwarz, pela coleção Frenesi, à qual o poeta deu nome, inspirado num filme de Hitchcock. Publicou posteriormente os livros Verão Vagabundo, Piquenique em Xanadu, Folias Metafísicas, Por Mares Nunca Dantes, Lira dos Cinquent’anos e Balada do Impostor.
Publicou os livros de prosa Vinicius de Moraes: a Fala da Paixão e Leblon: a Crônica dos Anos Loucos.
Traduziu sonetos de William Shakespeare, na coletânea Sonhos da Insônia.
Na música, foi parceiro de Egberto Gismonti, Astor Piazzolla, Francis Hime, Wagner Tiso, John Neschling, Nando Carneiro e outros compositores, cujas músicas foram gravadas por diversos intérpretes importantes dentro da música brasileira.
Para o teatro escreveu Lola Moreno, parceria com Bráulio Pedroso,Folias do Coração e Apenas Bons Amigos, parceria com Miguel Falabella, Divina Increnca e a Iluminada.
Traduziu A Tempestade, de W. Shakespeare, adaptou Como Gostais, além de Lúcia McCartney, de Rubem Fonseca 1987, Lulu, de Frank Wedekind e As 1001 Noites. Do mesmo Shakespeare, traduziu ainda Antonio e Cleópatra e Trabalhos de Amor Perdidos.
Como roteirista, escreveu Sônia: Morta & Viva, de Sérgio Waissman, Eternamente Pagu (em parceria com Márcia de Almeida), O Judeu (em parceria com Millor Fernandes). Para a TV, adaptou diversas obras literárias para a série Brasil Especial (entre as quais O Santo que não acreditava em Deus, depois refilmada por Cacá Diegues como Deus é Brasileiro, A Desinibida do Grajaú, Lúcia McCartney e O Compadre de Ogum), escreveu as minisséries Tudo em Cima e O Sorriso do Lagarto.
Participou da criação do programa Tamanho Família e da série Você Decide, da qual foi supervisor de texto. Escreve a série para TV Faça sua História em parceria com João Ubaldo Ribeiro.
Minha proposta, ao criar este espaço, é conviver com pessoas que, como eu, apreciam e se nutrem na boa arte. Juntar, a cada sessão de postagens, um artista plástico e um poeta, emoldurados por uma música envolvente, é uma forma de estimular os sentidos. Todos os dias precisamos nos alimentar e descansar. A arte nos ajuda nisso e refina nosso espírito. Sou filósofa por formação acadêmica e me agrada muito a estética da arte. A Fada do Mar Suave, como título, é uma personagem que me permite ficar no mundo dos sonhos, e não precisa ser relacionada com a imagem física de uma pessoa.
A Fada do Mar Suave circula pelo Orkut há bem uns dez anos e este blog surgiu em janeiro de 2009. Formalmente, o site WWW.fadadomarsuave.com.br se encarrega de sustentar o registro legal do nome e, de forma prática, reendereça todos os visitantes para este blog, http://fadasuave.blogspot.com . Não tenho equipe, trabalho sozinha e quem quiser fazer qualquer observação, é só deixar mensagem.
Agradeço aos artistas e poetas, que autorizam nossas postagens.
Com amor,
Fada do Mar Suave
São Paulo, SP, Brasil
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