Emilia Castañeda








NÃO HÁ LUGAR Q'EU QUEIRA IR



Em delírio minha alma vaga,
Com desalento e muita dor,
Sem esperança de encontrar,
Amigo puro com ou sem cor.

Se você encontrar alguém assim,
Por favor, me diga e me apresente,
Pode ser o Cristo que chegou aqui.

Será possível que só a morte,
Realize sonhos e planos,
Ou é simplesmente sorte;
Como teve o casal Ghost!?

Neste Carnaval sairei de alma penada,
Vestida de mortalha a pular desvairada,
E se eu cair, não ligue e me deixe ali.
Pois não há mais lugar q’eu queira ir.



Ysolda Cabral

Emilia Castañeda








COLANDO PEDAÇOS


A folia do Bloco da Jia passa.
Quem será o guia
De tanta alegria?!

O trio toca um frevo rasgado,
A multidão esquece a tristeza,
Pulando enlouquecida pelas ruas,
Do bairro da Boa Viagem...
- Ah, saudade!

O calor é de mais de trinta graus,
Em pleno domingo à tarde.
E ainda nem é carnaval!

Estou só com minhas dores...
A sensação de perda machuca,
E o dia perde suas cores.

Procuro a máscara e a fantasia,
Que também não foram usadas,
No carnaval passado...

E, ao encontrá-las destroçadas,
Não me surpreendo e sorrio,
Afasto o desânimo e o cansaço,
Colando de qualquer jeito os pedaços.



Ysolda Cabral

Emilia Castañeda







APENAS RESTOS


No frasco, restos de perfume...
Essência.

No diário, restos da rosa...
Significativas marcas.

Na pele pálida...
Restos de beleza clássica.

Na terra...
Restos mortais.

Na alma, amor sem saudade...
Vida!


Ysolda Cabral

Emilia Castañeda







LUCIDEZ INSANA


Depois de longa espera,
Ansiosa e intensa,
A paixão a revela.

Trêmula de saudade,
Uma saudada doída, mas bela,
Até lhe completa...

E nos preparativos do reencontro,
Planeja, sonha, espera...

De repente a lucidez dita à regra.

Você chora, entristece, emudece,
E, obediente... Impotente...
Abre mão da quimera...

Continuar seu caminho,
Indiferente e inerte,
É apenas o que lhe resta.


Ysolda Cabral

Emilia Castañeda







METÁFORAS


Não sabia que a tristeza doía tanto
Não sabia que o silêncio poderia incomodar
Não sabia que o desânimo tirava sono
Não sabia que o dia custasse a passar

Não sabia que não sabia de nada
Só sabia que sabia mais sorrir que chorar.

Sabia que um dia especial iria chegar
Sabia que todos os meus sonhos ele iria levar
Sabia que a indiferença poderia matar
Sabia que o inusitado não poderia alcançar

Sabia que não sabia de nada
Agora só quero saber de chorar

Amanhã é outro dia...

O Sol me fará novamente levantar
Fico agora a pensar: e se amanhecer chovendo...?
E eu mesma me respondo: você ficará na cama
E nela permanecerá até que a chuva vá pra outro lugar.

Não sabia que não sabia de nada
Agora só quero saber de dormir pra sonhar.


Ysolda Cabral

Emilia Castañeda








METÁFORAS - II


Por adorar meu amor inventado,
Hoje lhe mando um recado,
Cujo cabeçalho começa assim:

Por aqui o dia amanheceu
Muito firme e muito forte,
Exatamente como eu.

E continuo...

Mesmo estando de saudade febril,
Fui caminhar e logo percebi,
Que do canto não saí.

Tentei levantar e foi em vão.
A cabeça doía e os braços também.
As pernas não obedeciam,
E foi assim que começou o meu dia.

De repente muita raiva me deu,
E de um pulo levantei.
Resultado: fui parar no chão frio,
O qual me arrefeceu.

E agora estou aqui,
A lhe escrever estas linhas,
Só pra dizer que, pode não parecer,
Mas ainda amo você.



Ysolda Cabral

Emilia Castañeda







Soledad Fernández






Soledad Fernández








o sopro da deusa


me deleito no leito da poesia
a deusa que me acolhe com constância.
as outras, conforme a circunstância,
a fome de inventar o vento-amor.
sopro suas velas e ela se revela
em sua precariedade e seu esplendor.
é um rito que repito sem saber
se outra mão ampara a minha mão,
se sou ou se não sou conquistador
dessas conquistas feitas só de éter.
minhas palavras nunca foram minhas,
mas foram me forjando com sua força
até que me tornasse esse não-ser
feito de arquiteturas sem lugar
senão no reino-sonho que fundei.
essas palavras sopram-me presságios
e nelas plantarei os meus naufrágios.



Geraldo Carneiro
Balada do Impostor (Editora Garamond, 2006)


Soledad Fernández



Soledad Fernández

A pintora madrilenha é considerada pelos críticos como um dos melhores artistas realistas da atualidade, sendo o corpo humano um de seus temas favoritos, especialmente mulheres nuas envolvidas em papel e tecidos, o que dá a seu trabalho certa magia e mistério. Ela vive desde 1949 em Collado Villalba, Madri. Entre 1960 e 1967 estudou no atelier de José Gutiérrez Valle, mestre da Escola Sevilhana. E se tornou uma artista de atelier. Fez vários cursos em arte moderna no Círcuito das Artes, em Madri. Nos anos 80, visitou e aprimorou-se em artes em Paris, Londres, Roma e Veneza, mergulhando nas técnicas que havia aprendido em Madri. Principalmente a partir de 1987, teve sucesso em várias exposições importantes pela Europa e Estados Unidos.









eternidade



para os estóicos o tempo não era
a mera caravana dos sucessos,
essa aventura quase sempre sem sentido
no rumo da anti-Canaã,
a terra onde não há qualquer Moisés
extravagando no Deserto dos Sinais


existe assim um outro tempo, imóvel,
no qual paira a palavra impronunciada,
o mito, sendo tudo e nada,
e idéias como flores ainda à espera
de outra Era ou só da primavera
e da decifração posterior


em suma, se os estóicos não criaram
um sistema solar irresistível
capaz de orientar a órbita dos astros
e as caravelas do conquistador,
em troca talvez tenham inventado
a melhor metáfora do amor


Geraldo Carneiro
Lira dos Cinqüent'anos (Editora Relume-Dumará, 2002)