Barnaby Whitfield



 

 

 

 




Arremesso



 
Porque despertar em mim esse animal
alucinado. Animal de olhos de fogo.
Selvagem e louco. Esse animal acuado
que perde sangue no jogo. Essa fera
que te ataca e te resiste. Que por pouco
não te mata. Ah, essa desenfreada que me existe
e me devora. Porque despertá-la agora
já que há tanto vinha adormecida.
Porque assustá-la assim em meio ao sono.
Porque arrancá-la bruscamente de seu sonho
e transportá-la de repente para a vida.
Porque despertar em mim essa cavala doida
que vai te galopar de corpo inteiro. Enlouquecida
que vai se ferir em meio ao trote. Porque atiçar esse 
bicho
que nessa luta vai morrer primeiro.
Que vai morrer de fome, de grito, de garganta enxuta,
de tanta entrega. Dilacerado de tanta força bruta.
Porque despertar essa besta que me habita
que se torna cruel e desumana quando aflita.
Porque gritar com ela no silêncio de um sono branco
em que já vinha há tanto. Porque provocá-la em meio 
ao espanto
quando ainda não era o seu tempo.
 
 
 
 
Bruna Lombardi

Barnaby Whitfield



 

 

 

 




Desígnios


 
alguém pode me dizer
se estava prevista na palma da minha mão
esta paixão inesperada
se estava já escrita e demarcada
na linha da minha vida
se fazia já parte da estrada
e tinha que ser vivida
 
 
 
ou foi um desgoverno repentino
que surpreendeu os deuses, todos
os que desenham o nosso destino
ou foi um desatino, uma loucura
uma imprevisível subversão
que só a partir de agora eu trago marcada
na palma da minha mão
 
 
 
 
Bruna Lombardi


Barnaby Whitfield



 

 




Identidade


 
 
depois então me deu uma preguiça
meus mitos estavam todos superados
não gosto da ingenuidade das pessoas
e o comodismo delas me exaspera
tenho vinte e tantos anos e nenhum ídolo
mas procuro ainda entre as mesas da cidade
um olhar um pouco mais feroz, alguém
um indício de um paralelo clandestino
um universo duvidoso, que não se possa supor.
 
 
 
Talvez entre os que tramam, os que conspiram
entre as pessoas mais secretas do planeta
luzes íntimas, sótãos, desvios
talvez os sussurram para os livros
os que fabricam substâncias, os que se permitem
talvez os que ambíguos ameaçam
entre os mais loucos, os obsessivos, os fascinados por alguma coisa.
 
 
 
 
Acredito nisso: no fascínio
na doentia obstinação
na paixão mais absurda
que nos torna transparentes para nós mesmos
para os outros eternamente impenetráveis.
 
 
 
 
 
 
 
Bruna Lombardi


Barnaby Whitfield








***
Alta Tensão




eu gosto dos venenos mais lentos
dos cafés mais amargos
das bebidas mais fortes
e tenho
apetites vorazes
uns rapazes
que vejo
passar
eu sonho
os delírios mais soltos
e os gestos mais loucos
que há
e sinto
uns desejos vulgares
navegar por uns mares
de lá
você pode me empurrar pro precipício
não me importo com isso
eu adoro voar.




Bruna Lombardi
***

Sokolova Nadejda

VESTE



(para Berijo Wanderley)




Mãos de lã, a morte

A roca move

E fia fina veste

De não e cinza.

Dura o oficio

Horário de infinito

Para a veste que fia

Noite e dia.



Não veste a veste

Nem a lã aquece

O que amanhece

E anoitece

Tem vez e voz

E circunavega

Em circunstâncias.

Mas veste a veste

Para quem os fis crescem

E se cruzam

Cruzes com cruze

Na tessitura.

A Morte veste a veste

A quem seus dardos mostram

Quando seus dados joga.

E a medida já se faz exata.



Tão sutil a negra roca fia

O fio que juntado a parte

A veste que vestindo rasga

Aquele que o veste

E rasgando o limite rompe

Na horizontalidade.



Fiando a veste fina

De frigida pluma

E atenta morte

De frio veste

Com mãos de lã, fios de nada,

Aquele a quem a sorte tira.

O que assim vestido fica

É infinito e lã.



Então a morte a roca estanca

E endurece a veste

Com suas mãos de lã.

E a veste quem vestido esta

Já não é veste, mas armadura.

Nem armadura, já é mordaça.

Nem mordaça, desligamento.

Esquecimento.

Ou nada.



A veste amém

De fina lã

Não e cinza

Veste o sono sem veste

Que não veste o sonho

De quem assim vestido está.






Myriam Coeli

Sokolova Nadejda









BUSCA

(para Celso da Silveira)



Deus é meta.

Eu O procuro

Em vias tortas

E em metáforas.

Sou caliça,

Fel, mordaça,

Circo e faca


Deus é a face.

Eu, o disfarce.


Deus é o indicio.

Eu, caos, circulo.


Deus cativo

- minha fabula.


Deus, é a seta.

Eu, a meta.


Deus é a trilha

Das temências

Desta fera

Teosófica.


Deus, linguagem

Já me acorda

E, com ela

Me interrogo

Gutural.


Deus, dual

Que me entrega

Prodiga arvore

Com seus frutos

Que ressumam

Bem e Mal.


Sou engodo,

Prumo e rumo,

Sonda e revolta,

Arco e alvo,

Céu e chão.

Meu oficio:

- dispersão.


Deus é o verbo.

Eu, o erro.


Deus é o espelho.

Eu, a imagem.


Deus é infindo.

Eu, finito.


Deus é luta.

Eu, espada.


Deus é eterno.

Eu, o minuto.


Deus, amor.

Eu, o ardil.


Deus, temor.

Eu, o terror.


Eu sou a morte,

Tédio, pó,

Ser fremente,

O debuxo

Do momento,

Almenara

Do contexto

Carne e sangue

Que incendeia

O improvável;

Fugitivo

De meus medos

Eu me escondo

No esconso

De meu âmago

Que amarga

Triste exílio

Ser convulso

Me afirmo

No vão fulcro

Do artifício.

Torto e podre

Meu silêncio.


Se contorno

Estas sombras

Que alongam

Os meus sopros,

Já me penso

Semelhante

Só farsante.


Crucifica-se

Minha essência

Na inconstância

De calvários

Onde morrem

Maravilhas

De esperanças.


Deus é a meta

Eu o procuro

Em vias tortas

E em metáforas

Deus é a face

- meu disfarce.




Myriam Coeli