Jeff Neugebauer




Desencanto


Não tenho culpa por não estar nos seus sonhos
Sequer pude compartilhá-los com sua alma
Jamais dialoguei com seu inconsciente enquanto dormia
O sonho é seu, mas o pesadelo é meu


Nada fiz que não fosse para deixar as coisas leves e singelas
A todos os sinais respeitei
Não andei de costas e tampouco ao mundo avisei
Suportei e não apavorei


Quando se vai e sempre fico no lugar de sempre a esperar
Penso dias e noites da madrugada a chegar
Um capuz impede os meus olhos enxergar
E estou em plena tortura diante de fatos que nem posso controlar


Distante e angustiado me vejo desencantado
Não sou nenhum sujeito desavisado
Apanhar da vida parece uma coisa que tem me amaciado
Mas sou resignado, um pouco revoltado, mas jamais um depravado


Na minha idade me sobra integridade
Por isso não dou ouvidos à leviandade
Mesmo que ela tenha de uma boca voado
Não suportaria minha mãe ter magoado


Não obstante a porcaria de minha humanidade
Sei que não ando perto da humildade
Mas tenho um Deus que se chama simplicidade
E espero que minha poesia não cause mal-estar a quem antes não tinha crueldade.


Lúcio Alves de Barros

Jeff Neugebauer








Janela da vida


Da janela a vida passa
No interior do veículo tudo se amassa
São muitos os homens e as mulheres à caça
Perfis tensos e corpos cansados escondem a carapaça

A vida passa
Em movimento a plebe aparenta estar bebaça
A vida vai estacionando em frente a uma filaça
Vejo homens e mulheres se contorcendo em manifesta trapaça

A vida passa
E, nós, no interior do coletivo, fazemos parte de uma massa
Vejo os olhos atentos da negaça
E o seu seio que arregaça

A vida passa
E passam crianças e adolescentes fazendo arruaça
Sorrisos e lamentos fúnebres pululam na cabaça
E após uma piada muitos acham graça

A vida passa
De janela em janela o mundo ameaça
As enfreadas do coletivo disciplinam os recalcitrantes
E penso como a vida seria antes

A vida passa
De soslaio vejo uma mulheraça
O movimento balança suas ancas
E os seios empinados revelam duas bolas brancas

A vida continua a passar
O coletivo continua rápido a andar
Uns resolvem parar
O motorista a maltratar

De janela em janela a vida passa
Mendigos reclamam da esmola e ficam de pirraça
Mulheres discutem sobre o preço do feijão
E penso como vai andando a dor do meu coração.

A vida passa
E perto da delegacia vejo drogas e um crack com uma bundaça
O tráfico opera
O Estado onera e espera

A vida passa
E lá vai mais um ponto cheio com uma louraça
A banalidade da vida é uma ameaça
E um velho grita e mostra sua carcaça

A vida passa
Escuto uma reclamação de um sindicato que trapaça
Amanhã a vida será complicada
E notei o movimento de uma bela delicada

A vida passa
E as crianças com fome estão na praça
Deus a elas não deu graça
E no enfrear do carro saiu uma fumaça

A vida passa
No remexer dos bolsos vejo o homem ganhando para a cachaça
Levanto e penso em desgraça
Desço rápido e vou remoendo os pensamentos de uma vida inútil repleta de mordaça.


Lúcio Alves de Barros

Jeff Neugebauer





Reciprocidade


Fico triste quando está triste
Sinto que não alcanço sua alma
O meu estômago diminui ficando como uma semente de azeitona
Meu coração vai se derretendo e se transforma em um quiuí
As coisas pioram quando não mais sinto sua respiração
O movimento dos pulmões, apesar de acelerados, é desconhecido.
Quisera alcançar o seu inconsciente
Sua resistência me provoca como o vento da chuva
Minhas forças são grandes como a Tanajura sem bunda.
E me contorço de remorso por não alcançar o que desejo
Sinto as mesmas contrações da tensão pré-menstrual
E torço para que as lágrimas não caiam. Tudo para economizar suas forças
A vida não é fácil
Eu não sou dos mais amistosos
Mas gostaria de sentir toda tristeza que dela nesse momento percebo
Não sei como reagir
Abro os ouvidos como folhas de taiobas
Deixo aceso meu espírito e espero com ousadia todos os demônios compartilhar
Respiro fundo cada fagulha dos restos do ar que posso pegar
Está aí minha incapacidade nua e crua
A única forma que posso ajudar
O meu sentimento é o que tenho nesse momento
Ele é forte e doce
Não vejo outra forma,
A não ser a de abrir meu corpo
e com ele toda a possibilidade de vê-la novamente abrir o sorriso
Belo sorriso que ilumina toda minha casa
Sorriso que por vezes retirou-me da tristeza e de momentos difíceis que agora passa
Pois é, estou aqui, cheio de mim e com pouco de você
Chegue mais perto: respire comigo
E deixe que meus ouvidos façam o trabalho da escuta
Juntos, certamente nos acalmaremos e tal como Deus quer, iremos continuar caminhando juntos.


Lúcio Alves de Barros

Jeff Neugebauer







Catherine Abel






Catherine Abel









RIMA DE VIDA


Que a poesia atrevida
encha sua vida vívida
até a boca
e se derrame toda ávida,
inundando a minha vida
lívida.


É que minha vida lívida,
cheia de si mesma
e tão pouca,
sem nenhuma dádiva,
é irmã siamesa da sua;
vívida.


Derrame sua poesia divina
nessa minha vida,
tão plena de dúvida,
e sejamos rima de (vida):
- Eu e você, para sempre;
faça sol, faça chuva!


A sua poesia alivia a minha vida árdua.


Oswaldo Antônio Begiato

Catherine Abel










FORASTEIRA


Eu nasci mulher
E mulher vou caminhar.

Com meus olhos sagazes,
Com minhas sardas censuradas,
Com minha boca enfeitada,
Com meus seios valentes,
Com minhas coxas atrevidas,
Com meu sexo forasteiro...

Eu nasci mulher
E mulher vou caminhar.

Com minhas pernas próprias.
Com minhas pernas sóbrias


Oswaldo Antônio Begiato

Catherine Abel


Catherine Abel


Inspirada há muito tempo pelos movimentos artísticos e pelas formas angulares do início do séc. XX, a artista australiana Catherine Abel cria pinturas figurativas a óleo. Combinando estilos clássicos com temas complexos da moderna sexualidade feminina, seus trabalhos são composições poderosamente sedutoras, de força e beleza. Influenciada em seus primeiros anos pelas obras de Picasso, Braque e Dali, e, mais recentemente, Andre Lhote e Tamara de Lempicka, seu trabalho evoluiu para um estilo verdadeiramente original.
Abel iniciou sua carreira de pintora professional em 2000, quando se mudou para Paris. Durante sua estada lá, e em viagens à Itália, foi apresentada às composições dos mestres renascentistas, que influenciaram em muito sua carreira. Catherine retornou à Austrália após três anos em Paris e São Francisco, e rapidamente se estabeleceu em Sydney como uma refinada artista, prosseguindo uma trajetória internacional.


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PEQUENA BIOGRAFIA


“SEM SOMBRAS



Ao meio dia
De um domingo
Prenhe de sol
E enamorado de outubro
Rompi espontâneo
Como um botão de rosa fêmea
Que nasce sem ser esperado.”

Nasci, sob o signo de escorpião,
em 26 de outubro do ano de 1.953,
na cidade de Mombuca,
um pequeno encanto
no canto interior
do Estado de São Paulo.


Menor que a cidade só eu mesmo.

Ainda pequeno vim para Jundiaí,
também São Paulo, Terra da Uva,
da qual experimentei o sabor do fruto
e jamais a deixei.


Nela me fiz advogado sem banca,
aposentado sem queixas
e onde perambulo até hoje,
buscando, perdidas nas sarjetas,
as palavras que me usam
para escrever poesias as quais publico aqui
e na internet de um modo geral,
além de ter participado com elas
de algumas Antologias pelo Brasil.
Em 1988, publiquei um livro de poesias,
sem muita importância e feito artesanalmente
em um mimeógrafo antigo,
chamado "O Menino".


Oswaldo Antônio Begiato