Tela
Esvaziei a minha tela
Joguei-te de encontro à parede.
Expulsei-te com teus demônios
A enredar-te em próprias teias.
Disfarcei, tremi, sofri.
Dei-te um fim.
Apartei-te de mim.
Lancei-te ao vento, em conjecturas mornas.
Bueiro adentro, junto às baratas mortas.
Execrei-te, bati, fervi.
Cozinhei em fogo brando, sem lavar.
Só cosi!!
Agora o inevitável - pesar
Junto às tuas lágrimas, teu penar.
Minha tela ficou livre, esvaziada, firme e forte.
Pregada, estampada, ajeitada,
Caprichada, imbatível, intocável,
Lavada, perfumada, impermeável.
Só figura o capricho
Sem tuas mãos, sem carrapichos
Tem odor, perfume e cor...
Tem laranja, ocre, sabor...
Sem a luz fingida e rubra,
Ondeando, tateando, beliscando.
É vazia, é Clarice, tem meiguice.
Olhos tristes trocados por faróis.
Enormes seios vertem leite
Gota a gota, fio a fio...
Afundaram o teu navio
Minha tela... é vazia..,.
Minha tela... todo dia...
É tão bela, arrepia!
Kátia Torres Negrisoli
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