Carla Bedini

Carla Bedini




Dobras do Cotidiano


Ana Perissé*


Não deixar a vida perder-se
silenciosamente
no espectro de seu inverso;
porque poucos o traduzem
ou têm coragem para gritar o indizível.

Clamor em ondas de silêncio
do inaudito,

frio

ou mequetrefe,
que se revelem!

O oposto do belo
é a beleza crua
a se desvelar
na crueza das dobras do cotidiano.

Pelo gargalo
ou pelo ralo
ainda há pulsação
autêntica.

Pela estética do que difere
ou que também

e ainda
fere!


Carla Bedini







A Poética do Desvio


O indizível está pulsando

na veia da vida

em artérias eloqüentes

que jorram silêncios

em ondas de sangue

de pele

de sermos.


Não quero a certeza dos que não sonham.


à inutilidade das sobras

à incerteza que nos assombra

à paixão que nos inunda

de fluidos

odores

vertigem

de sermos.

Quem?


Ana Paula Perissé





Carla Bedini






ABISMOS


Há um quê de abismo
em cada respiração
como se a dúvida
da queda
batesse sem asas
para a vida
minha
sôfrega existência.

Suspiro de ausências
me preenche
do inútil
que me inventa.

Ana Paula Perissé*

Carla Bedini







Incomple-Tudo


Incompletar-se

inebriada pela falta

desde útero

que germina

seres

para o buraco

da existência;

uma vaga

de nada

a incompletar-se

sempre.

Incompletude

do parto ao túmulo

certeza do incompleto

que nos completa

de vácuo

ao preencher

entranhas

embriagadas de silêncio.


Actos eternos incompletos de sermos.

Ana Paula Perissé

Carla Bedini






Escapada

procuro por mim
em tentivas de fugas
rubras.

Escapo da minha pele
em fantasias incontidas
e brinco de amarelinha
sob um lago com
flores caídas

são vermelhas
intensas
germinantes, tantas

esvaio-me
sumo
perco-me

ah! estou-me em tantas

( fantasias de menina em códice de metáforas esvoaçantes)

Ana Paula Perissé


Carla Bedini





Mínima Pulsação


entre cada pulsação de dor

uma fresta
tal qual uma correnteza

desvela um incerto
adormecido

que se faz verbo
carne e existência
a cada instante.
( para que caminhos?)


ousarei sempre os mesmos erros

(todavia revistos)

desta vaga
de te querer
inundado de mim.

Ana Paula Perissé