Shiori Matsumoto





Que lindos olhos de azul inocente os do pequenino do agiota!

Que lindos olhos de azul inocente os do pequenino do agiota!

Santo Deus, que entroncamento esta vida!

Tive sempre, feliz ou infelizmente,
a sensibilidade humanizada.

E toda a morte me doeu sempre pessoalmente,
Sim, não só pelo mistério de ficar inexpressivo o orgânico,
Mas de maneira direta, cá do coração.

Como o sol doura as casas dos réprobos!
Poderei odiá-los sem desfazer no sol?

Afinal que coisa a pensar com o sentimento distraído

Por causa dos olhos de criança de uma criança ....

Álvaro de Campos

Shiori Matsumoto

Shiori Matsumoto







Começo a conhecer-me. Não existo.

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Álvaro de Campos


John William Waterhouse

John William Waterhouse








" E o Resto é Silêncio..."


E então ficamos os dois em silêncio, tão quietos
como dois pássaros na sombra, recolhidos
ao mesmo ninho,
como dois caminhos na noite, dois caminhos
que se juntam
num mesmo caminho...

Já não ouso... já não coras...
E o silêncio é tão nosso, e a quietude tamanha
que qualquer palavra bateria estranha
como um viajante, altas horas...

Nada há mais a dizer, depois que as próprias mãos
silenciaram seus carinhos...

Estamos um no outro
como se estivéssemos sozinhos...



J.G. Araujo Jorge


John William Waterhouse





" Tormentas "


Ouço lá fora o ruído da tormenta
e através do emabaciado da vidraça
- vejo um clarão que as nuvens despedaça
ao rimbombar de uma explosão violenta...

Há uma luta de massa contra massa
na amplidão que rasga e se arrebenta,
- e o vento chora, e o vento geme, e o vento passa,
e o vento grita, e o vento brada, e o vento venta...

E eu só... sozinho... este meus versos faço...
- Que bem me faz ver os clarões no além
como nervos de luz brechando o espaço...

E o que sinto - ninguém, certo, advinha,
só eu mesmo, talvez, porque sei bem
que ante essa outra tormenta esqueço a minha !

J.G. Araujo Jorge


John William Waterhouse





" Mágico "


Antes, empilhei palavras sonoras,
fabriquei imagens e símbolos
como um mágico de minha arte,
fiz prestidigitação.

Agora, sinto que é poesia.
As palavras vem do coração
e não posso tocá-las.

J.G. Araujo Jorge


John William Waterhouse




"
Interlúdio "



Há uma estranha ternura, há uma estranha meiguice
na expressão de teu rosto e em teu modo de ser.
Criança e mulher... talvez, ainda ninguém te disse
o que, com o meu olhar, confessei, sem querer...

Teu olhar... esse teu olhar adolescente
onde há um misto de sonho e indeciso desejo,
me perturba e emociona inesperadamente
sempre que em meu caminho, eu te encontre, eu te vejo...

Quando vens para mim, e te sinto ao meu lado
a olhar-me nos olhos, terna, fundamente,
teu coração, - bem vejo, - é um pássaro agitado,
a bater em teu peito, as asas, febrilmente.

Que fazer? E essa dúvida atroz me alucina.
Em teus olhos inquietos, há um clarão qualquer.
Devo deixar passar a criança, a menina,
ou devo transformar a menina em mulher?

J.G.Araújo Jorge


John William Waterhouse



John William Waterhouse




" O Espelho "


Dizias não gostar dele...
Mas já te vais acostumando à sua silenciosa
presença...

Mudo espectador só ele tem o direito de assistir também
às redescobertas de tu beleza.

Tu me chamas de louco, porque às vezes,
não contente de ver-te a face,
te surpreendo em descuidadas revelações
em seus olhos prateados...

Então te enches de imprevisíveis pudores
como se ele, mudo e dissimulado,
tivesse alma, e pudesse ser um estranho alguém
presente em nossa intimidade.

Tolice, amor,
por ele posso encontrar num mesmo instante
todas as faces de tua beleza
e multiplicar ao infinito
as loucuras do nosso amor!

J.G. de Araujo Jorge

John William Waterhouse





Silêncio- J. G. de Araujo Jorge

"Em Silêncio..."

Poderíamos ficar assim indefinidamente.

Conversariam nossos olhos.
As palavras cintilariam
e desapareceriam
como fosforecências de algas,
nas areias...

J.G. de Araujo Jorge