Guillaume Seignac






Raiz Amarga



Sinto que sou raiz amarga.
Terra gretada é minha sede.
Núcleo de sombras é meu cárcere.

Lá fora - ao sol, à chuva, ao frio -
rastejarei à flor do chão?
Estarei no ar em clorofila?...

Não sei se há a graça do tronco,
pássaros abrigados nas franças,
escaravelhos zumbindo nos brotos.

Não sei se há doçura de pétalas,
nem aconchego de folhagem
dormindo sobre espelhos d'água.

Seja de ouro o pólen ao vento,
de ouro o mel a escorrer do cerne,
de ouro a flama em torno da lenha!

Sonho a paisagem do meu quadro:
vale seivoso entre montanhas
e o céu - acima de minha fronde.

Porém meus gestos prescindidos
como os nós cegos das amarras
furtam-me a toda revelação.

Talvez - condenada ao deserto -
eu realize apenas miragem
na imaginação dos homens.

Henriqueta Lisboa

in Prisioneira da Noite

http://br.geocities.com/edterranova/henriquetapoe.htm


Guillaume Seignac





Vem, Doce Morte



Vem, doce morte. Quando queiras.
Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens
desfilam pálidos casulos
e o suspiro das árvores - secreto -
não é senão prenúncio
de um delicado acontecimento.

Quanto queiras. Ao meio-dia, súbito
espetáculo deslumbrante e inédito
de rubros panoramas abertos
ao sol, ao mar, aos montes, às planícies
com celeiros refertos e intocados.


Quando queiras. Presentes as estrelas
ou já esquivas, na madrugada
com pássaros despertos, à hora
em que os campos recolhem as sementes
e os cristais endurecem de frio.

Tenho o corpo tão leve (quando queiras)
que a teu primeiro sopro cederei distraída
como um pensamento cortado
pela visão da lua
em que acaso - mais alto - refloresça.

Henriqueta Lisboa

http://br.geocities.com/edterranova/henriquetapoe.htm




Guillaume Seignac






Da Espécie



A rosa atrai a rosa.
Por enredos e meandros
de essência.

A áurea rosa, a fulva, a rubra,
na expectativa da mais pura.
E são vergeis convergindo
para abertas campinas
na milenar procura
de uma fórmula mágica
paradigma da espécie.
Existe a branca, a nívea rosa
de perfeição una e perene
ou apenas a imagem
que deriva do anelo?
O aroma, a seiva, a força,
eu os sinto latentes
a presumir da forma para o enleio.
E entre mil rosas consagradas
à rendição do redil,
existe a rosa selvagem
que se reclina sobre o abismo.
A que vai ao acaso
de crisol em crisol
para que brote a transcendente
rosa com que sonha a rosa.

Henriqueta Lisboa

(in O Alvo Humano)

http://br.geocities.com/edterranova/henriquetapoe.htm


Guillaume Seignac






Restauradora



A morte é limpa.
Cruel mas limpa.
Com seus aventais de linho
-- Fâmula -- esfrega as vidraças.
Tem punhos ágeis e esponjas.
Abre as janelas, o ar precipita-se
Inaugural para dentro das salas.
Havia impressões digitais nos móveis,
Grãos de poeira no interstício das fechaduras.
Porém tudo voltou a ser como antes da carne
E sua desordem.

Henriqueta Lisboa

(In: BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia
brasileira. Edições de Ouro. s/d.)

http://br.geocities.com/edterranova/henriquetapoe.htm