Marc Chagall









Versos sem tempo e espaço

© Nathan de Castro


Não cortarei a minha orelha,
não serei assassinado em New York,
não tomarei pílulas de cianureto
e nem me entregarei ao sedutor e inconfundível
olhar de um precipício.
Não escreverei um poema que tenha na esquina
o olhar da menina comendo chocolate,
ou que tenha passagem livre para Pasárgada.
Nunca terei um corvo em meus umbrais.
Um cachorro late ao luar da madrugada
pobre de emoção.
Van Gogh canta “Imagine” e Lennon pinta os
campos, as árvores e as estrelas da noite de verão...
Preciso ouvir e gravar, em versos, somente os sons
dessas melodias celestiais.
Loucuras, nada mais.
Uma locomotiva passou à porta da minha infância.
Guardei somente o apito e o ranger dos ferros
para compor este poema sem tempo e espaço.
Não cortarei a minha orelha,
não contarei os teus passos, não guardarei os meus
sonhos e nada mais espero dessas horas perdidas
à frente do meu eu tão pouco e que mora arrastado
pelos rios da poesia.




Marc Chagall






Hoje eu quero te amar, sempre


© Nathan de Castro



Hoje eu quero te amar à flor do verso,
no inverso do quadrado da distância,
quebrar as leis e as rimas do Universo
e reescrever o olhar da nossa infância.

Hoje eu quero te amar com elegância,
sorver o suco, os sumos do reverso
e provar que a paixão é a substância
que move o mundo e as letras que diverso.

Hoje eu quero te amar como quem morre
de saudade e de página vazia.
Te amar, assim, tão tanto... Se me escorre

o som do nada, e escuto a melodia:
__vem, meu amor, o amor por certo corre
no trilho azul dos lábios da poesia.




Marc Chagall






Paixão

© Nathan de Castro


Viver de saudade
é a morte confusa
de quem perde o chão,
e o sumo da tarde
balança e não cruza
co'o céu da razão.
O verso certeiro
traz na letra o cheiro
do olhar da ilusão,

e o encanto do nada
desperta a enxurrada
no vil coração.


Persigo a cidade
feliz,
de onde a musa
escreve o verão.

A luz se me invade
e a noite recusa
a palavra:
razão.
Somente o primeiro
amor é o certeiro
e o fiel da canção,
mas a verdadeira
paixão não tem eira,
nem sol, nem perdão.