Catherine Brooks







Tudo é dor



A bela lua cheia de ontem foi incapaz de tirá-la de minha cabeça
Latente ela continuou maltratando o meu olhar triste para as estrelas
Cansei delas
Apaguei as luzes
Fiquei quieto
Não adiantou
Levantei e fui andar



Tirá-la da cabeça é difícil e complexo
Tenho tentando
Esforçado

Chego a arrancar cabelos
Arranhar a pele
Morder os dedos do pé
Abrir as narinas
Unhas já não tenho
Os dentes estão gastos
Minha garganta seca quando penso nela
Ou seria ela pensando em mim?



Fico quieto após uma longa e suada caminhada
A serotonina não ajudou
A dopamina passou longe
Espinhos estão em minha espinha
Agulhas de duas pontas estão no interior do meu cérebro
Algo aperta meus testículos
Embrulharam o meu estômago para presente
Furando os meus olhos estão milhares de fantasmas
Tudo é dor



Novamente ela está na minha cabeça
Avança em minha alma
Bate com força no meu espírito
Sinto calafrios enormes
Palavras aparecem como vômitos
Vejo as coisas pela metade
Adagas brancas batem em minha face lúgubre
Andei rápido para casa
Fechei as portas
Apaguei todas as luzes
Desliguei os telefones
Pensei em quebrar a televisão
Molhei minha cabeça com água gelada
Enchi o estômago de remédios de quinta
Me misturei em panos e cobertores
Nem assim
Mesmo (quase) adormecendo ela não abandona a minha cabeça
Ela...
Essa danada da dor de cabeça
A desgraçada da enxaqueca.


Inverno de 09/07/2009

Lúcio Alves de Barros

Publicado no Recanto das Letras em 10/07/2009
Código do texto: T1692901


Catherine Brooks







Do Amor Romântico




A cada dia penso que o amor é uma ilusão
No passado era o local da emoção
Para os românticos puros pura crença e tensão
E os filósofos acreditavam na sua idealização



Amar é perigoso
Enquanto há paixão tudo é gostoso
No primeiro ato de perfídia fica tenebroso
Em relações ocultas horroroso



O amor realmente nos encanta
Ao romântico levanta
Melhora o deprimido que agora canta
E satisfaz o pobre que nada planta



O amor de Drummond é delicado
O amor de Florbela Espanca é encantado
O de Neruda um aprendizado
O de Fernando Pessoa deificado


O fato é que o amor não resiste à realidade
Ele sucumbe à perversidade e a infidelidade
Abre rasgos no peito devido à maldade
E se evapora como água quando chega à banalidade



Paulo, o apóstolo, disse que ele permanece
Atualmente ele causa é estresse
E em um romântico como eu a alma entristece
No amor, certamente, não encontra-se o verdadeiro alicerce.



Lúcio Alves de Barros

Publicado no Recanto das Letras em 26/02/2009
Código do texto: T1458291


Catherine Brooks




Fogo “amigo”



Em homenagem a Machado de Assis (1839 – 1908)




Não sou culpado das desgraças alheias
Amei como se tu a mim foste
Venerei-lhe como a uma santa no altar
Gastei as energias que possuía
Utilizei todos os recursos
Batalhei com o escudo da dor latente
Lutei com o capacete da paixão
E gritei como o último cantor do palco


Durante a guerra não foram poucas as bombas do fogo “amigo”
Da artilharia da labuta nada sobrou
Perdi a guerra, mas lutei e lutei em meu terreno covardemente invadido
Ao longe observei o inimigo sorrateiramente tomar conta
Acompanhado ele fez marcas, matou sonhos, pisoteou a honestidade
Assassinou a fidelidade e credenciou a inexistência da felicidade
Abriu ferida no coração da lealdade e beijou o meu rosto com o olhar da vingança


Neste instante vejo com claridade os passos ingênuos das bombas jogadas
Derrotado, mas não humilhado, digo que lutei, briguei como ninguém, amei como pude
Perdi a guerra e me afastei da batalha
Não consigo guerrear na injustiça
Armar e amar ao mesmo tempo
Sem o terreno não tenho mais como plantar as batatas
Sem batatas e sem amor caminho com galhardia entre as bombas a cair.



Lúcio Alves de Barros

Publicado no Recanto das Letras em 10/01/2009
Código do texto: T1378475