Olga Oreshnikov

 

  

  


Por partes


Vamos por partes
Por partes eu não vou

Vamos pelo todo
Pelo todo não desejo ir

Vamos por onde?
Temos que ter por onde ir?

Por quê não?
Não é melhor a insegurança?

Por que ter medo dela?
Vamos viver
Deixar a chuva banhar o medo,
Levar a esperança, lavar a perseverança, respingar a temperança
O sol nos observará e secará
Então deixe os cabelos livres, não há porque penteá-los

Vamos colocar os pés no chão
Sentir a terra
O cheiro da chuva
Amar a lua
Fazer sexo com o sol

Vamos nos trabalhar, beijar, abraçar, apertar os corpos
Vamos viver a vida, sem cobranças, mandos, desmandos e perfídia
Vamos viver, tatear, tocar, sugar, lembrar de tudo e do tempo que não passa
Antes que a morte e a velhice nos batam à porta e nos leve para o todo ou para as partes.



Poesia publicada no livro BARROS, Lúcio Alves de & VILELA, Antônio Henrique. Das emoções frágeis e efêmeras. Belo Horizonte: Ed. ASA, 2006.



Lúcio Alves de Barros


Olga Oreshnikov

 

  

  

  

  


Dias amargos



Amargo foi o dia em que nasci
Poucos sabem que logo me aborreci
E tenho certeza da vontade de ter ficado por causa do colibri.

Cambaleante, como um soldado perigosamente ferido em guerra, sinto-me apedrejado
Amarrado e, sinceramente desconfiado, levanto o meu corpo já cansado.
Distante vejo o mundo arrebentado, destruído e alienado.

Tenho e sinto culpa por ter esse rosto assertivo
Mas há tempos que não vivo
Há tempos que persisto, persigo e tenho ciência que me privo...

Horas, dias e meses passam, e o tempo é o melhor amigo
A temporalidade, contudo, é o pior inimigo
Ambos passam, tal como a minha porca vida se esvai
Não encontro uma pessoa que, viva em minha lágrima, cai

Talvez a vida seja isso, um longo e perigoso teatro
Não suporto os potentes, os onipotentes e os que na verdade andam de quatro
Distante do desejo de ser protagonista desse mundo de homens e mulheres de aço
Prefiro a impotência, a simplicidade e má sorte de ser um eterno palhaço.

Lúcio Alves de Barros


Olga Oreshnikov

 

 

 


SOMENTE UM


Estou fadado a ouvir os seus passos
pelos quais vai firme e devagar,
sobre pequenas nuvens e espumas do mar.

Penso e imagino os leves deslocamentos
que lentos vão atender a um chamado que desconhecido.
Contorço de ciúmes e sonho que caminha em minha direção.


O auto-engano me traz sua voz
que cochicha em meus ouvidos e acalma
sossegando o coração e a alma partida pelo medo do desconhecido.

O mundo não espera, o cansaço me supera e rouba forças
Guardadas para cuidar de suas dores, desamores e infortúnios.
À deriva navego em um turbilhão de ondas de sentimentos,
o ar me falta, mas e a desejo tanto que não abro mão de seus sofrimentos.

Se necessário quero me confundir com eles
Acabar-me neles e,
diante da possibilidade de vê-la infeliz,
sonho em protegê-la, em tê-la, em ser você
e que somos, nesse mundo desencantado, somente um.

***
Lúcio Alves de Barros (poesia publicada no livro BARROS, Lúcio Alves de & VILELA, Antônio Henrique. Das emoções frágeis e efêmeras. Belo Horizonte: Ed. ASA, 2006. p. 102).



Lúcio Alves de Barros

Olga Oreshnikov






***
  Mal-estar

 Ao lhe ver nasceu o desespero,

 uma lucidez embriagante,

 dessas de cortar braços e pernas,

 lembro-me da luta diária do passado...

 de um céu que sufoca, a furar olhos e estourar tímpanos...

 fiquei cego,
 arranquei cabelos,


 bati os pés e chutei a vida como se ela fugisse de mim...

 beijo a morte todos os dias e faço questão de ir rumo ao sol

 tudo isso porque a loucura me persegue.



 Lúcio Alves de Barros
***


Ekaterina Abramova






Ekaterina Abramova

 
 
Ekaterina Abramova é uma artista de estilo moderno, que pratica pintura e artes gráficas em técnica mista, utilizando diferentes materiais, como óleo e aquarela. Nasceu em Hotkovo of Sergiev-Posad, distrito de Moscou, em 1979.
Seus primeiros objetivos em composição e artes foram fixados por seu pai, Alexander Abramov, artista e escultor em madeira. Ekaterina já participou de diversas exposições.
Sus obras estão em coleções particulares na Rússia, Alemanha, Finlândia, Reino Unido.

Contato:

Tel.: (254) 317-19
       (812) 323-2030
       8-903-576-1352
       8-921-751-3668

E-mail:
art@podlipki.ru

  

  

  

 

 

  


Homenagem a Cesário Verde


Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas


Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!



MARIO CESARINY



Ekaterina Abramova

 

  

  

  

  

  

  

Em todas as ruas te encontro
 
 
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
 
 
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
 
 
Mário Cesariny
 
 

Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu em Lisboa, 9 de Agosto de
1923 e faleceu em  Lisboa, 26 de Novembro
de 2006. Foi um pintor e poeta, considerado o principal representante do
surrealismo português.
Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e estudou música com o
compositor Fernando Lopes Graça, de graça. Durante a sua estadia em Paris em
1947, frequenta a Académie de la Grande Chaumière. É em Paris que conhece André
Breton, cuja influência o leva a criar no mesmo ano o Grupo Surrealista de
Lisboa, juntamente com figuras como António Pedro, José Augusto França, Cândido
Costa Pinto, Vespeira, Moniz Pereira e Alexandre O´Neill. Este grupo surgiu
como forma de protesto contra o regime político vigente e contra o
neo-realismo. Mais tarde, funda o anti-grupo (dissidente)"Os
Surrealistas" do qual fazem parte entre outros os seguintes autores
António Maria Lisboa, Risques Pereira, Artur do Cruzeiro Seixas, Pedro Oom,
Fernando José Francisco e Mário-Henrique Leiria.
Mário Cesariny adota uma atitude estética de constante
experimentação nas suas obras e pratica uma técnica de escrita e de
(des)pintura amplamente divulgada entre os surrealistas. Introduz também a
técnica designada “cadáver esquisito”, que consiste na construção de uma obra
por três ou quatro pessoas, num trabalho em cadeia criativa em que cada um dá
continuidade, em tempo real, à criatividade do anterior, conhecendo apenas
parte do que este fez.
 
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Cesariny

 
http://www.astormentas.com/din/poemas.asp?autor=M%E1rio+Cesariny


Ekaterina Abramova

 

  

  

  

  


Poema
 
 
Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes   loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
 
 
Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina   realmente   os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
 
 
Mário Cesariny