LUCAS KANDL







O mundo que venci deu-me um amor


O mundo que eu venci deu-me um amor,

Um troféu perigoso, este cavalo

Carregado de infantes couraçados.

O mundo que venci deu-me um amor

Alado galopando em céus irados,

Por cima de qualquer muro de credo.

Por cima de qualquer fosso de sexo.

O mundo que venci deu-me um amor

Amor feito de insulto e pranto e riso,

Amor que força as portas dos infernos,

Amor que galga o cume ao paraíso.

Amor que dorme e treme. Que desperta

E torna contra mim, e me devora

E me rumina em cantos de vitória...


Mário Faustino

LUCAS KANDL






BRASÃO

Nasce do solo sono uma armadilha

das feras do irreal para as do ser

– Unicórnios investem contra o Rei.

Nasce do solo sono um facho fulvo

transfigurando a rosa e as armas lúcidas

do campo de harmonia que plantei.

Nasce do solo sono um sobressalto.

Nasce o guerreiro. A torre. Os amarelos

corcéis da fuga de ouro que implorei.

E nasce nu do sono um desafio.

Nasce um verso rampante, um brado, um solo

de lira santa e brava – minha lei

até que nasça a luz e tombe o sonho,

o monstro de aventura que eu amei.

Mário Faustino

LUCAS KANDL





PREFÁCIO


Quem fez esta manhã, quem penetrou
à noite os labirintos do tesouro,
quem fez esta manhã predestinou
seus temas a paráfrases do touro,

a traduções do cisne: fê-la para
abandonar-se a mitos essenciais,
desflorada por ímpetos de rara
metamorfose alada, onde jamais

se exaure o deus que muda, que transvive.
quem fez esta manhã fê-la por ser
um raio a fecundá-la, não por lívida
ausência sem pecado e fê-la ter

em si princípio e fim: ter entre aurora
e meio-dia um homem e sua hora.


Mário Faustino



LUCAS KANDL





Sinto que o mês presente me assassina


Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)

Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para

Assassinar-nos num mês assassino.



Mário Faustino



LUCAS KANDL