Andrzej Malinowski








Antes que apagues teu brilho,
nívea estrela matutina,
(no tomilho
a codorniz trina, trina!)


volve ao poeta, cujo olhar
o amor cegou como um véu,

(com o dealbar,
sobe a cotovia ao céu!)

teu olhar, que se diria
banhado na luz da aurora,
(que alegria
vai pelos trigais em fora!)

e leva o meu pensamento,
longe, além, lá, bem distante,

(com o relento
o feno ficou brilhante!)

no almo sonho em que não cessa
de se embalar o meu bem,

(mas depressa,
que o sol dourado já vem!).


Paul Verlaine




Andrzej Malinowski






É o êxtase langoroso



É o êxtase langoroso
É a fadiga amorosa

São todos os arrepios do bosque
Entre os abraços das brisas.

E para o lado das inquietas ramagens
Há um coro de pequenas vozes.

Oh fresco e frágil murmúrio
Tudo chilreia e assusta
Assemelha-se ao doce grito
a aspirar da agitação da erva...
Dirias, sob um redemoinho d’água
Um surdo rolar de seixos.

A alma a lamentar-se
Nessa queixa dormente
É a nossa, não é?
É a minha, dize, é a tua,
d’onde se exala a humilde antífona,
Tão baixinho, nesta noite morna?


Paul Verlaine





Andrzej Malinowski







CANÇÃO DE OUTONO

Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.

E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doidos
De outrora.

E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.



Paul Verlaine

Tradução: Guilherme de Almeida





Andrzej Malinowski






Canção do Outono





Os soluços graves
dos violinos suaves
do outono
ferem a minh'alma
num langor de calma
e sono.


Sufocado em ânsia,
Ai! quando à distância
soa a hora,
meu peito magoado
relembra o passado
e chora.

Daqui, dali,
pelo vento em atropelo
seguido,
vou de porta em porta
como a folha morta,
batido...


Paul Verlaine
Tradução de
Alphonsus de Guimaraens