Jeff Neugebauer






Jeff Neugebauer








Sonhos em ti


Sonho em sua face clara
Vontade de pegar seus cabelos da noite
Amarrar-me nos belos seios que sustenta
Acariciar o seu pescoço de cristal
Morder os seus pés vermelhos
Protegê-la contra o vento sujo
Tatuar minha mão em suas torres sempre firmes
Desejo lhe afastar do mundo dos mortos
Cair sobre a sua boca molhada
Confundir-me com as partes do seu corpo nu
Deslizar sobre ele minhas pequenas mãos
Voar em meio às nuvens da chuva azul que cai
Esquivar junto contigo dos que a invejam no mundo dos vivos
Colocar-me à frente do tiro certo e da bala perdida
Da fala invejosa verde e sádica
E da língua acesa daqueles que nada tem a perder
Queria estar sempre ao seu lado
Ouvir o seu sono e lhe acordar para o seu café
Sentir que sou e faço parte de sua alma branca
Mesmo que para isso seja preciso morrer e ficar quieto no meio do seu espírito que, por vezes, me esforço por ser.



Lúcio A. Barros

Jeff Neugebauer

Jeff Neugebauer

Jeff Neugebauer desenha e pinta desde criança e cultiva essa paixão por toda sua vida. Seguindo as técnicas florentinas da Renascença, incorporou o conhecimento dos grandes mestres em seu trabalho. Antes de passar a pintar em tempo integral, Neugebauer inovou com as técnicas da tecnologia multimídia a partir de 1990, aplicando sua criatividade e talento para produzir obras com auxílio do computador, como animações e CD-roms interativos, levando sua empresa, a Spiral West, a uma posição de liderança, atendendo clientes como Time Warner, Wells Fargo, Intel e Netscape.
Jeff Neugebauer desenvolveu sua técnica e maestria pelo estudo de mestres renascentistas como Leonardo Da Vinci, Raphael e Caravaggio. Integrando conceitos e técnicas modernas com essas técnicas, as pinturas de Neugebauer são similares ao trabalho alegórico do mestre contemporâneo Odd Nerdrum. “Ravens Follow Men Into War” é um profundo e provocativo autorretrato, tratando das batalhas em nossas vidas.















A arte de voar


Voando ela pensou estar
Bateu forte na vidraça dura da vida
Não percebeu a perversa engenharia humana
Do seu último ato escutei somente o barulho seco
Seu corpo já estava apelo chão
Nenhum movimento
Dele saia no bico um fino fio de sangue
Olhos fechados, pescoço ainda mole...
Agora ela pode voar em paz.


Lúcio Alves de Barros

Poeta

Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte/MG – Brasil


* Lúcio Alves de Barros é licenciado e bacharel em
Ciências Sociais pela UFJF, mestre em Sociologia e doutor
em Ciências Humanas: Sociologia e Política pela UFMG.
É autor do livro “Fordismo: origens e metamorfoses”.
Piracicaba, SP: Ed. UNIMEP (Universidade Metodista
de Piracicaba), 2004, organizador do livro
“Polícia em Movimento”. Belo Horizonte: Ed. ASPRA, 2006,
co-autor do livro de poesias, “Das emoções frágeis e efêmeras”.
Belo Horizonte: Ed. ASA, 2006 e organizador da obra
“Mulher, política e sociedade”. Brumadinho: Ed. ASA, 2009.

Lúcio Alves de Barros

Publicado no Recanto das Letras em 13/09/2009
 Código do texto: T1808312

 

Jeff Neugebauer







Chocolates

Ela é mais que isso

em tempos de Páscoa

creio estar longe do pecado em pensar que nela

encontro uma pele macia de chocolate branco

em sua boca carnuda e grande um chocolate de leite

sua testa é alva

e o chocolate colorido é o gosto que ela tem

quando deita em mim sinto o chocolate em cobertura

e quando nos estranhamos sinto o beijo do chocolate amargo

depois minhas lágrimas caem como chocolate em pó

e quando meio-amargo nos amamos debaixo do chuveiro

até que sua pele novamente fique branca, tal como o chocolate de outrora.


Lúcio Alves de Barros

Jeff Neugebauer







Em movimento



Lendo sinto o vento lento

letras do lamento

Sinto sofrimento

Lento vento em movimento

Sentimento aumento

Vento do argumento

Felicidade de momento

Lendo, vendo, vento

Lento, lendo no firmamento

Saudades não aguento.



Lúcio Alves de Barros

Jeff Neugebauer







Vazio


Ainda não sei por que teimo a acreditar
Na vida dos homens que parecem brincar
As pessoas sequer sabem conjugar o verbo amar
E confundem na vida o que realmente é importante buscar

Difícil se conformar
Com um bando de homens e mulheres que no peito bradam a Deus e dizem orar
Muitos sequer se preocupam com a maioria que está a chorar
E nos dias de hoje poucos no comando só desejam endinheirar

Não entendo o sofrimento a aumentar
Estamos todos em uma vida que sequer tem um sentido para se avaliar
Grudamos nas coisas efêmeras para nos aliviar
E acordamos alienados a vagar

Não sei, mas o oprimido ainda oprime sem titubear
Não sabe ele que também terá que se entregar?
Não existe justificativas para a opressão perseverar
A não ser o desejo mórbido e sádico de ver o outro se arrebentar

Horrível a condição humana que sabe somente comparar
Optar pelos que tem em detrimento dos que não tem somente para patrimonializar
Viver ilusoriamente como se o mundo fosse o ato de se fantasiar
“Sepulcros caiados” são todos que porventura gostam de no oprimido gozar

De qualquer forma a vida não é para do outro se aproveitar
A maioria está cansada e nem possuem a ciência de onde vai parar
Matamos as crianças e adolescentes como se assim pudéssemos continuar
E batemos palmas para aqueles que no mundo vantagens querem ganhar

Se a vida tem algum sentido para acreditar
Cansado a levo sempre a perguntar
Se o homem um dia vai mudar
Como já não tenho forças para nisso acreditar...


Prefiro na certeza da morte pensar


Lúcio Alves de Barros

Jeff Neugebauer





Maldita hora



Maldita hora em que resolveu partir
Não tinha o direito de deixar-me só
Poderia ter me perguntado antes
Solicitado meu dedo ou uma parte de minha panturrilha

Maldita hora em que produziu saudade
Preciso dizer que respirei melhor em sua companhia?
É necessário afirmar que a tarde sempre lembra seus cabelos em mim?
Sinto falta e uma coroa de espinhos repousa em minha cabeça

Maldita hora em que preferiu partir
Conseguiu minha mente atormentar
As chances - definitivamente - apagar
E minhas lágrimas caíram como um mar

Maldita hora em que resolvi lhe sentir
Encontrei-me novamente em segurança
Enchi os meus pulmões de esperança
E acreditei em quem “espera sempre alcança”

Maldita hora em que se foi
Levou contigo tudo e nada que eu já tinha sempre
Nada e tudo que eu nunca tive
E pouco de tudo que foi sempre mais e alguma coisa

Maldita hora em que preferiu viajar
Ficou tudo confuso e minha inspiração sempre a desejar
Troco as palavras e as letras saem do....   lugar
Fiquei tonto e minha coluna voltou a se entortar

Maldita hora em que invadiu meu ser
Há tempo não me preocupo com o ter
E pouco tenho a oferecer
Minhas letras são nada diante do que tens a merecer

Maldita hora em que me entreguei
De lá para cá não mais sosseguei
Traído sempre me sinto e cansei
Retomar é novamente invadir um espaço que antes reneguei

Maldita hora em que me preteriu
O mundo simbólico em que vivo se feriu
Um mangue de sentimentos se esvaiu
A poluição de pensamentos invadiu

Maldita hora em que se foi
Fiquei feio e gordo como um boi
Tornei-me sujo e cansado
Meu corpo destruído e abalado

Maldita hora em que permiti sua ida
Obrigatoriamente modifiquei minha vida
Decidi por não perder a guarita
Introspectivo sigo na lida e devagar espero outra ferida.



Lúcio Alves de Barros

Jeff Neugebauer





Triste fim


Ela estava na janela alegre
Sentou-se na frente devido à idade avançada de anos
Estava azul o dia de sol amarelo e seco
Pombas, homens, mulheres e crianças passavam
Um senhor gordo lhe deu tchau
Um cão gosmento a viu de longe
e de perto ela via os automóveis estacionarem ao lado
O sinal vermelho e chato fechava sua visão
A ansiedade a comia por dentro
Sonhos e sonhos invadiam a mente ainda saudável e voraz
Netos, sobrinhos, filhos e filhas a acompanhavam em pensamento
Tudo em mil maravilhas
Um forte empurrão a senhora velha sentiu
Uma freada deseducada e mal sucedida
Ela perdeu os movimentos singelos
Saiu voando como um pássaro bêbado
Seguiu firme no ar como um raio no céu
Bateu duro no vidro do coletivo cheio de gente escrava
O grande carro parou e com ele toda sua vivacidade de então
Poucos minutos infernais e quentes
As costas a projetaram no ar sem controle
Não existe segurança para velhos, pobres e crianças
Motoristas idiotas não respeitam os mais adiantados na experiência de vida
Idosos deveriam ter asas
Talvez não ajudassem naquele momento
Tudo foi muito rápido e conturbado
E lá foi ela de encontro ao aquário em movimento
Caiu firme pela escada suja
Doeu tudo
Inacreditável a queda e o olhar de peixe morto do motorista
Todo mundo viu, poucos ajudaram
Ela foi se levantando no pequeno cubículo que lhe contorceu a coluna
Amargurada, envergonhada, avermelhada
Dia ruim aquele, antes bom e quente
Dores e mais dores foram esquecidas diante de olhares ocos
A maldade humana não tem limites
Cabelos desmanchados, roupas sujas, cotovelos e mãos arranhadas
O desrespeito a céu aberto
Uma jovem ainda ri
Uma outra vira de lado e tripudia da velha ainda zonza
A porta se abre
É o seu distante ponto.
O tempo foi seu inimigo. A freada veio antes
Justificativas saem da boca suja de quem segura um volante
Pergunta desgraçadamente se está tudo bem
Ela balbucia algo tremido, sofrido e ardido
O coletivo segue a trajetória fúnebre
Deixando para trás a velha antes alegre e viva
Agora está como o cachorro que de longe avistou
Triste chegada para uma vida de empenho, trabalho, luta e galhardia
Triste fim para um dos piores dias de um ser humano

Lúcio Alves de Barros

Jeff Neugebauer




Desencanto


Não tenho culpa por não estar nos seus sonhos
Sequer pude compartilhá-los com sua alma
Jamais dialoguei com seu inconsciente enquanto dormia
O sonho é seu, mas o pesadelo é meu


Nada fiz que não fosse para deixar as coisas leves e singelas
A todos os sinais respeitei
Não andei de costas e tampouco ao mundo avisei
Suportei e não apavorei


Quando se vai e sempre fico no lugar de sempre a esperar
Penso dias e noites da madrugada a chegar
Um capuz impede os meus olhos enxergar
E estou em plena tortura diante de fatos que nem posso controlar


Distante e angustiado me vejo desencantado
Não sou nenhum sujeito desavisado
Apanhar da vida parece uma coisa que tem me amaciado
Mas sou resignado, um pouco revoltado, mas jamais um depravado


Na minha idade me sobra integridade
Por isso não dou ouvidos à leviandade
Mesmo que ela tenha de uma boca voado
Não suportaria minha mãe ter magoado


Não obstante a porcaria de minha humanidade
Sei que não ando perto da humildade
Mas tenho um Deus que se chama simplicidade
E espero que minha poesia não cause mal-estar a quem antes não tinha crueldade.


Lúcio Alves de Barros