FELIZ NATAL!!!

Giotto di Bondone






“O Natal é um tempo de benevolência, perdão, generosidade e alegria. A única época que conheço, no calendário do ano, em que homens e mulheres parecem, de comum acordo, abrir livremente seus corações”.

Charles Dickens

Carlo Maratti




Véspera de natal.
Grande coisa,
                   ver as pessoas
de hora marcada
                   pra se empanturrar
                   e desejar,
                                 só naquele momento
o que deveria ser desejado
                                 o tempo todo

Véspera de ano novo.
Grande coisa,
                   ouvir as pessoas
prometendo
                  mudar a dieta
                   pular sete ondas,
                                 só naquele momento
o que deveria ser prometido
                                 o tempo todo

Roberto Queiroz

Domenico Ghirlandaio




Natal


De repente o sol raiou
E o galo cocoricou:
- Cristo nasceu!

O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:
- Aonde? Aonde?

Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:
- Em Belém! Em Belém!

Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:
- Foi sim que eu estava lá!

E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: – É mentira!

Os bichos de pena, em bando
Reclamaram protestando.

O pombal todo arrulhava:
- Cruz credo! Cruz credo!

Brava
A arara a gritar começa:
- Mentira! Arara. Ora essa!

- Cristo nasceu! canta o galo.
- Aonde? pergunta o boi.
- Num estábulo! – o cavalo
Contente rincha onde foi.

Bale o cordeiro também:
- Em Belém! Mé! Em Belém!

E os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.

Vinícius de Moraes

Rubens




Agora é recomeçar.


Vai, ano velho, vai de vez,
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um,
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum, pra trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,
a casa e o coração.
Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.

Vem, Ano Novo, vem veloz,
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nosso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso,
e sacia em nós a fome
- de utopia.

Vem na areia da ampulheta com a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se
se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol a gema do Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.
Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.
Entre flores de urânio
é permitido sonhar.

Affonso Romano de Sant'Anna

Agnolo Bronzino




Finais de ano


Finais de ano são melancólicos
Neles retomamos lembranças,
Poesias, saudades.

Vamos catando os caquinhos que ficaram pelos meses
Juntamos um pouquinho a cada e de cada dia
E sempre sobra ou falta alguma coisa

Não deveria existir final de ano
Mães também não deveriam morrer
E a chuva nunca deve cair quando estamos na rua

Aos poucos percebemos que a vida é a finitude
Um caminhar constante para ela. Sem interrupções
Umas puxam aqui e ali e outras colocam coisa lá e acolá

Mas os finais de ano devem ser assim mesmo
Tal como a vida o tempo e o espaço têm o fim
E louvo aqueles que encontram alegrias nas festas

Acho tudo tão hipócrita, fingido, ostentatório e inútil
Uma obrigação de feliz repousa sobre ombros cansados
E não consigo ser solidário

Prefiro ser o "solitário", encerrado em minha companhia
É porque estou ficando velho como o velho do asilo
E, tal como o ano, vejo que o meu fim também se aproxima


Lúcio Alves de Barros

Jacob Jordaens




Receita de Ano Novo



Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação

com todo o tempo já vivido

(mal vivido ou talvez sem sentido)

Para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo,

remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,

novo

até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo espontâneo,

que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha

ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegrama?)

Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto da esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo  novo,

eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.


Carlo Drummond de Andrade

Hans Multscher




Natal

Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.

Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Giotto di Bondone



Marcas
do continuum de uma história
plena de ágoras
outrora
não vividas
irrompem
de forma abrupta
o despertar
do qual tanto anseio.

meu passado
que não se fez
é AION
tempo mágico
ah! venha tomar-me
de assalto
e à ti
me entrego
à acção vindoura
do que ainda me resta
longe de CHRONOS
faminto e brutal

te quiero
como amante
KAIRÒS
desfigurante
vívido, pulsante
e não linear

como numa
brava magia
de Moiras
dançarinas
celebrantes
da Vida
esvoaçante
desejante
pra nós.


(deixo uma celebração lunar atemporal ao ano gregoriano de 2012)

Ana Paula Perissé

Andrea Montegna


Feliz Tempo Novo!

Fechemos de luz!
Na coleta de noites e dias cansados,
no amor semeados.
Na poesia das horas caídas, doídas,
vertidas das profundezas,
clama o artista em espelhos vividos,
fletindo vazios, ora de sombras,
ora de luz a colheita...
De frutos benditos chorados,
sonho, esperança somados
na força do bem, de mãos que se dão.
Irmanadas, no templo sagrado, coração alado,
pura beleza se faz doação.
Vida, Arte, saída pra delicadeza,
homem de fé, na dança
à volta do fogo celebra
ecos eternos de integração.
Portais se abrem pra festa,
num tempo aberto, desperto.
Consciência ampliada,
sensíveis momentos
em contemplação...
Augure! Vamos!!!
Adentremos!

Gaiô.

Caravaggio




Velho Amigo


Nesse dia de natal em que já não estás comigo
Ai, deixa-me chorar ao relembrar a valsa de um natal antigo
Ao chegar a velha hora...
Eu te lembro, velho amigo, entrar bem devagar, me beijar
E ir, chorando, embora

Meu velho, amigo, porque foste embora
Desde que tu partiste o meu natal é triste
Triste e sem aurora
Se o céu existe, se estás lá, agora
Lembra bem lá do céu
Que existe um menino sem Papai Noel

Baden Powell

Rembrandt


Pedido de Natal


Gostaria neste Natal
de ganhar uma moradia.
De preferência numa ilha,
deserta e nos confins...

E quando estivesse por lá
eu poderia viver assim...
Daquilo que bem entendesse...

Usaria como moda: o nu;
como condução: uma jangada;
como programação: a paisagem
como dinheiro: o ouro do sol,
a prata da lua
e os brilhantes das estrelas...

A música seria ambiente;
a mansão de pau-a-pique;
a água de coco;
o palmito sem conserva;
a chuva sem acidez;
o céu sem barulho;
e para companhia: um amigo sumido,
que eu não dava atenção a tempos...
Eu mesmo!

E aí finalmente
sentiria o Espírito de Natal,
pois teria o melhor presente:
Eu, verdadeiramente...

Osvaldo Heinze 

Bartolomé Esteban Murillo





CANTIGA DE NATAL

Quando o natal vem chegando
meus vácuos, prole da infância,
se enchem de Avenida Paulista,
de formas e lâmpadas surreais,
de presépios sobre-humanos,
de presentes multiangulares,
de Boas Festas de Assis Valente…

Todo ano, no mês de dezembro,
com as preces cheias de vitrines
e de dúvidas sobre um céu ouvidor,
desperta em mim a criança viva
que nunca fui. Que nunca vi.

Oswaldo Antônio Begiato






Zhong-Yang Huang







Para a Fada...



Universo que eu queria ...

Me acalenta e acabo me vestindo em poesia...

Vontade de delicadezas sonhadas,

idealizadas nesta Arte visual belíssima,

plenificada na palavra poética e sensível do Lucio...

tão melancólico e despido de tanta...nem sei...

Me emociono, com vontade de chorar diante do Belo...

Vontade de por vocês no colo, embalá-los...

Obrigada pela oferta de estrelas...Beijos.

Gaiô

Zhong-Yang Huang







Coisa de Poeta.


Poeta se achega pertinho.
Tenho um atalho
bem costurado na periferia de mim.
Perfaz o contorno,
atravessa o ser recortado em retalhos,
de eus que imaginam, se buscam encontrar.
São sonhos perdidos
em "sous" iludidos
montagem/colagem
se encontram.
O poeta sorri.
remendos se encantam
em composição
de um feliz
coração.

Gaiô 


Zhong-Yang Huang






Pensando...

...E tudo transcende o material...
que impregna o vivente...
goles sôfregos de eternidade,
asas de infinitude...
no impermanente...

Gaiô

Zhong-Yang Huang









Presente.

Nossa! Meu coração pulou! Já pensou?
Olhos vidrados faiscam! Nem piscam!
Como criança encantada diante da fada!

Gaiô

Zhong-Yang Huang







Assombrado.


As amarras se complicam
ao caminhante que oscila
na perda do espontâneo.
Assombrado pelo medo,
pela crítica,
navegante de si mesmo
recua, se refugia
sem coragem de enfrentar
O olhar iluminado,
a paz libertadora,
nas profundezas
do mar...

Gaiô




Zhong-Yang Huang







Canto ao amor inteiro.


Ah! O amor!Face antiga da presença,
Frente à frente de inteireza,
Ultrapassa o que idealiza,
Se constrói em cotidianos do que sofre,
Sem perder jamais beleza.

Ah! Tanto tempo!
Juntos, almas se descobrem
Em profunda diferença.
Se congraçam em sintonia,
Se doam, se entrelaçam,
Unem sombras, vestem luzes,
se assombram no espanto,
redescobrem no reencontro
outra medida, todo dia.

Se espelham nos desejos,
Ultrapassam egos pobres,
Se entregam docemente
De fortuna e de pobreza,
Nem sempre de tanta certeza.

Lá na fonte ramifica,
suas raízes são mais fundas.
Geram força e energia,
Tudo vence do que dói,
Resplandece o que transcende
No tudo que se constrói.

Gaiô