Tomasz Rut



sail on silver girl ...your time has come ... to shine ...



Tomasz Rut









DEMASIA

sem vertigem
sem abismo
sem dúvida

( a vida ainda pulsa?)

há um atrevimento atávico
um impulso em chamas
que não apazigua paixões

consome demais
deliciosos
todos
em metamorfose
a mão que se move
para o cerne
de um céu estrelado

há que se viver
em lançamentos

(puros desvarios
 alma que sobe
na escuridão)

o amor volta
à minha origem
e nos faz destino

nosso.


Ana Paula Perissé 

Tomasz Rut










EXISTENCIAL

ao redor não me vejo
percorro com chão de pés
descalços
à procura de um clarão

( eu cheguei a te conhecer?)

eu fiquei à tua beira
dentro de casulos
enluarados
tão distante entre-mundos

(porque aquilo que vejo
já não sinto
e aquilo que quero
já não mais percebo
e quando desperto
nada me chega
porque de tão sôfrega
aquilo que ouço é longe)

talvez não vai fazer sentido
mesmo quando a lua vai-se embora
e apaga a luz da noite

e eu fico assim
entre-mundos

                              
                      (quando foi que eu te disse que não ficaria?)

eu parti
como se partem pedaços
de gente
sem sinal à frente.

Ana Paula Perissé



Tomasz Rut









COMERCIO

estou a vender
enigmas
(arde um fósforo)
sussurrados de vento
para apagar
o pôr-do-sol
de perdas
incontáveis.

vendo mistérios
rubros arcanos
ou mesmo
peças avulsas
de encantamentos
recheios de fios
solitários
que nos une
ao tempo
da vida bacante.

Ana Paula Perissé 

Tomasz Rut







SEM POUSO

à beira de uma varanda
de chão em ruínas
a vida passa
com pressa
e o quê deixa
em seu rastro
vem-me em volúpia
imóvel
já sem as lágrimas
ainda em flor.

ainda
porvir.

e as janelas
já sem pouso
sorriem para lado nenhum.

(entre-mundos eu vivo
sem uma saber da outra)


Ana Paula Perissé 

Tomasz Rut







GIRA

eu te chego
todos os dias
e vejo de lá
um ipê amarelo
de uma linda mulher
ainda em flor

e eu te parto
todos os dias
sinto um tremor
de serra
a cada vez que as folhas
 caem
porque ainda nem ventou
em mim

eu não te sei
são muitas as voltas
tantos os voos
insones
tantas terras
porque o paraíso está
defronte
d´1olhar
que tive só por 1dia
de relâmpago

                                      gira entre-mundos
e eu te fico
sob o parapeito da janela
em frangalhos
quando chegam os fantasmas
de vidro

(eles não deixam marcas
apenas dores sem pistas
numa moldura estelar)

Ana Paula Perissé 

Tomasz Rut






LATEJA

há um tempo
em que sons
tons
                                                       uma certa fúria
estão para além de um sentido
possível
e ele bate à tua porta
tal como um escavador
cujos fósseis se quebram
e se perdem em histórias
que se fizeram
alhures

                                                            nunca mais

Deixe que se vão,
mujer.
Lembra-te apenas
de que te fizeram
tão forte
quanto tu és.

lança-te de novo
o mar envolto
revolto de vozes
estará para além de
qualquer sentido
possível

                                              sempre

ele está. ele é.

 a vida                                    ainda

lateja.


Ana Paula Perissé 

Tomasz Rut






CONFESSIONAL

ainda não sei
como te ser
aquela
de teu desejo

passo a manhã
no azul
a trazer-me perdas
e ando atrás de mim
tocando sem muita vida
a trama de tessitura
macia.

abro tua mão
na minha
na vontade de entranhar-me
na tua
                                    (anoitecer matinal prateado) 
agarro o silêncio
com a fome
que me desperta
e corro para o céu
sem nuvens,
cores exíguas
ele está a me deixar

sem teto
é um salto
para a falta de chão.
                      (as estrelas povoam minha fantasia
                                                         de menina)

e eu fico assim
no espanto vivo
que me corrói.

Ana Paula Perissé


Tomasz Rut









MEUS OLHOS

em teus olhos
ficam
um sumptuoso mistério
de 1`amor de além

( nos meus)
além vida
núpcias de pele em almas
inquietas pelo desejo
de horizontes

                                       (os meus tesouros
                                        todos, mas poucos
                                        protegidos em tuas
                                        pupilas)

em teus olhos
na ausência desta noite
acompanham-me
para além dos sentidos
planos
porque
estão-me,
doces... endoidados
aqui
só em mim

e os meus a te rondar
em sonhos de devir.

só eu e meu amor
de olhar.


Ana Paula Perissé 

Tomasz Rut






RUBI

não temo rubis
disfarçados por encontros
hostis

desci e desci
ao farfalho de vespas
e pouco encontrei-me

(os escombros que nos fazem
parte
estão-me à mostra
rindo de mim)

não temo rubis
escarlates
vigilantes de 1´amor
cujo preço está
no sussurrar do inaudito
à linha do horizonte

tem muito céu, as vezes

Ana Paula Perissé 

Tomasz Rut









DÌADE OU VAGALUMES

duo díade
múltiplo
dúvida.

há de pairar
um monte de vagalumes
quando houver luz à meia-noite.

muitos
tantos
que o poeta desiste
por vezes
da forma que o reduz
a 1`união de pontos
                      (indefinidamente são pairagens vivas)
no abismo
prisma
de vários
desejos de eus.

( fragmentos de mim
em dança de mesclas
bebendo o sal de algumas lágrimas)


Ana Paula Perissé 

Tomasz Rut







CADA

a cada olhar
a cada palmo
a cada dor

arremedo arrepiado
de nós desfeitos
pelo sonho do futuro

e a cada sonho
a cada respiro
a cada pó
que não se fez

desmoronam-se símbolos
zipados em caixas pretas
longínquas
tão afogados
quanto
o vôo nosso de cada dia

e pulsa no horizonte rosáceo
à espera do enigma
um doce segredo
chancelado em pele
nova


(existe um corcundinha sacana a manusear cada relógio
humano)


Ana Paula Perissé

Sou qualquer coisa que vive na vertigem de ser ou de não-ser, que sonha e que se perde, que se reencontra na pulsão vívida do Outro, que foge do local onde está, para voltar e escapar, virada e remexida ...
enfim, sou apenas uma viajante, aprendiz do tudo e do nada, uma nômade que acredita no amor.


E-mail para contato: anapperisse@yahoo.com






Tomasz Rut 

O polonês Tomasz Rut diz: "Eu busco inspiração na tradição humanística da arte clássica. Minhas telas expressam todo o espectro das emoções humanas, do isolamento e alegria ao contentamento, melancolia, dor e agonia.”
O artista conheceu a arte renascentista e barroca, que hoje o inspira, através de sua mãe, também uma artista. Suas pinturas em murais são conversões contemporâneas do vocabulário clássico variadamente continuado por Michelangelo, Raphael, Ticiano e Rubens. Ao fazer isso, Rut retorna à antiguidade por um duplo desvio. Primeiro, coloca em movimento o charmoso aparato irreal do mise-en-scene (Quattrocento) e, de modo mais importante, sua heroica nudez, vigorosa modelagem, expressiva estrutura anatômica, movimento poderoso e fascinante fisionomia.  Alternativamente, oferece impossíveis, delicadas e graciosas fêmeas.
Formado em Art Conservation na Academia de Belas Artes em Varsóvia, Rut continuous sua educação em New York, no Pratt Institute e na Columbia University. “Minhas pinturas dão às pessoas a habilidade de aprender, responder e sentir-se confortáveis com os clássicos”, afirma Rut.


Saturno Butto







Florfera

                                Tris/te/za - que - foi
                          A - mor/te - da – be/la
                               Fe/ra – Flor/be/la

             Em homenagem a poetisa Florbela Espanca
Lúcio Alves de Barros

Saturno Butto










Primavera pessimista

Minha “prima-vera” é um porre
Primos são chatos e chatas,
Olhe, observe e “Verão” que parentes não “frios”
Lembram o “inverno”, mas são ”outono”,
Quando não ganham ficam “Outontos”
E nas festas de fim de ano aparecem como o sol de “Verão”
e a prima vera ainda finge que o Natal vai chegar.

Lúcio Alves de Barros