Bruno Torfs












A DOR DE EXISTIR




Eis que ela encontrava-se no calor violento de uma noite funesta, envolta em quimeras e agouros. Com o corpo quase atenuado, alonga o vidro branco de absinto em suas mãos trêmulas, acreditando que dentro daquele frágil recipiente, haveria de ter, três ou quatro goles do líquido que sem mais demoras lhe ocasionaria o alívio de liberdade que tanto necessitava. Despudoradamente contemplava o pequeno frasco e tocava-o como se fosse à cruz de um terço, com uma fé que já havia morrido... Silenciosamente rezando para seu Deus secreto. Foi então, que deitada em seu leito, atravessou por reflexos de memórias esquecidas, como uma vidente ousada, em puríssimo transe, vendo toda sua miséria diante dos olhos enrugados no semblante paralisado, sentindo em cada marca de expressão, calafrios diante daquelas quatro paredes cinzentas. Suas lamentações terrenas ocuparam-lhe a mente perturbada por agudos amplificados em seus ouvidos, nos dois buracos vagos. Na inquietação do instante, aquele que lhe seria breve, pois já havia despejado na boca empalidecida o líquido mortífero, sofria sem resignação e sem piedade de si mesma, pois fora a decisão que tomara, e já não havia mais ocasião para revogar a sentença, fora algoz de si própria.

A juventude estava perdida no passado. Seu corpo já não era o mesmo, a pele que outrora fora esticada em branco-rosadas, encontrava-se subversiva e sem brilho, suas sobrancelhas claras limitavam-se a poucos pêlos a cima dos olhos, suas pálpebras abrumadas pelo tempo. O contorno de seu corpo, não lhe agradava em nada, pois era volumoso e sem delicadeza nas formas, as unhas amarelecidas e os cabelos branquinhos, quase prateados, tosquiados, eram ralos e enfraquecidos. Não se sentia confortável no próprio corpo, sofria dessa sensibilidade como enfermidade, e isso ela já não podia suportar. Não podia.

Com demasiado esforço, ergueu as costas com sofreguidão arrastando as pernas para a lateral direita da cama, queria fazer seu último passeio pelo quarto que sempre fora seu refúgio seguro. Ao assentar seus fracos pés no chão, pode sentir a umidade proveniente da água de chuva da noite anterior, que escorrera pelas telhas trincadas, atingindo o retrato de seus falecidos pais, retrato este que estava inteiramente transfigurado dentro da moldura pelas goteiras passadas, apenas restavam às silhuetas. Seguiu vagarosamente, contemplado a mobília empoeirada, mais não pode vê com exatidão as coisas, pois sua visão encontrava-se turva, o extermínio aproximara-se cada vez mais. Ocorreu-lhe então, a tentativa de apalpamento: com o andar tremeluzindo, foi conduzida pelo instinto que a despedida provocara em seu íntimo, caminhou lentamente até a velha máquina de costura que se encontrava esquecida no canto do quarto, lado à cama. Foi tocando com delicadeza as formas enferrujadas daquela que tinha sido fabricadora de tantos lindos vestidos de cetim e chita, que a mesma havia costurado para enfeitar-se ao longo de sua juventude sem tanta amargura. Continuou a busca por percepções vagarosamente em cada minúcia, experimentou levar nas mãos seus tubos de linhas, foi quando cortou o polegar esquerdo, em um golpe súbito até o cerne da mão; é que havia uma tesoura em meio aos tubos. E foi aí, que descobrira que ainda experimentara a dor, pois um pequeno grito de agonia, quase um soluço manifestou-se de sua boca e ressoou pelo quarto inteiro. O morno sangue escorreu-lhe pelo braço, manchando de carmim sua camisola de rendas encardidas, não era uma dor intolerável, esta era quase dormente, apenas sentira para perceber que ainda havia vitalidade em seu envelhecido corpo. Com as mãos ensangüentadas e vacilantes ousou caminhar seus dedos pela face empalidecida, e foi como mágicas visões no espelho de sua alma. Ligeiras brisas noturnas que atravessaram janela à dentro, por um instante resumido, trouxeram-lhe o frescor da juventude. Em sua memória, recordou-se de como fora bonita, e de exultante beleza, sentiu com docilidade cada ruga desvanecer-se junto ao ar que saía ainda quente de seus pulmões, era como se todos aqueles anos pactuados com seu corpo dessem-lhe um último presente; fugindo de sua pessoa por um breve momento.

Que alívio sentira, e como era bom sentir seus seios novamente na altura certa, redondos e empinados, os mamilos rosados e convidativos. Tocou-se com um prazer quase sádico, apertou as pontas dos seios com excitação, escorreu as mãos agora magras pelo corpo liso e torneado, passando pelo umbigo onde percorreu as pontas dos dedos em movimentos circulares, como que brinca-se de descobrir o que era aquele pequeno furo, e não hesitou em descer um pouco mais as mãos até sentir os pêlos que anunciava o lugar onde queria chegar. Enrijeceu os dois dedos posteriores ao polegar, e com urgência penetrou na fenda ali contida, vasculhou o recinto a procura do que seria a saída do labirinto, onde desfrutaria do prazer que não era sólido. Não demorou muito pra que alcançasse a ápice de seu contentamento, assim, como não delongou a perceber que estava toda vermelha em sangue, como se houvesse desenhado a via sacra em seu corpo, desde o busto até os quadris. E que susto ocorreu-lhe ao se deparar com tamanho absurdo que vivera, sentiu os ossos ficarem completamente escuros com a humilhação que se submetera. Não podia crer que ainda estava naquele corpo avelhantado, de mulher humilhada pelo tempo. Era uma ferida seca, agora umedecida de sanguíneo pesar.

Quase sem poder sustentar o próprio peso, arrastou-se com demasiado esforço para a janela, fitou os céus, onde a lua pairava estridente, sem muitas estrelas, e ainda pode divagar pensamentos. Viu-se diante de uma brutal situação, irremediável, como ela mesma era, sabia que havia passado todos os seus dias perseguindo ilusões, gastando todos os instantes que escorriam como areia do tempo por entre os dedos, na inabalável espera por uma segunda chance, por uma breve mudança que resolveria tudo. Consecutivamente criara um motivo para não se sentir boa o bastante, ininterruptamente cansada de seguir em frente. E como era difícil no fim do dia, contemplar o crepúsculo, sem carecer de alguma distração, de alguma perfeita libertação e sem peso talvez encontrar uma precária paz para dormir sossegada.

Sem nada para improvisar, sem uma última confissão, sem o conforto esperado e que sempre lhe fora negado, ela volta para cama quase desfalecendo, deita-se com a cabeça no travesseiro mofado. Ciente de que fora derrotada pela vida, entoa uma canção pesarosa, cantado ruidosamente, humildemente despedindo-se da existência que tanto lhe atormentou, até sentir seu sangue agora apressadamente congelar e o coração emudecer. Inevitavelmente nesta noite ela está em sua cama pela última vez, amanhã estarão sem ela; à morte murmurará em seus ouvidos de senhora aniquilada, “Tu foste bela... Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, amém”. Ela morre ao som da real celebração, na solidão de que sempre se habituou e que não pode se esquivar em nenhuma estação, descansa envolta em perfumes noturnos de uma noite que não foi menos triste com sua morte... “Os sinos chamam todos para missa da que em vida chamou-se Dolores Socorro do Pesar”.



Sindri Nathanael


Bruno Torfs









Filtro dos sonhos



Ele tentou aniquilar a dor cinco vezes, e por cinco vezes fracassou. Buscou dentro do mais escuro de sua intimidade um pouco de luz. Aquele brilho de que há tempos havia esquecido, porém não encontrou. Vasculhou a escuridão que haviam se instalado em sua memória, cinco coisas encontrou: medo, insegurança, tristeza, vazio e saudade. Sim, saudade de quem fora um dia, irremediável saudade dos dias de alegrias e contentamento que compartilhara com a única alma que lhe amara sem reservas.

Quando ainda era apenas um menino, encontrou uma velha senhora, a qual depositou confiança e afeto. Ela ofertou-o coisas nunca antes experimentadas por ele, era desconhecedor de tantas coisas. Era apenas menino. Acordava e contemplava as delicadezas do lugar onde vivia, com todas as cores e luzes, delicadezas e perfumes apenas vistos e sentidos por ele, apenas por ele. Criara um outro mundo para esconder-se, imaginário, porém real a seus olhos. Somente sonhava e sonhava. Os outros meninos da redondeza haviam esquecido de sonhar: corpos infantis sem alma sonhadora. Sobrevivia em terras agrestes, numa profunda pobreza, desde o pão à afetividade de que tanto necessitava: duas fomes essências que devem ser abastecidas. Mas em seu coração ainda carregava a inocência de que os meninos são feitos. Em seu coração brotava estrelas e esperança.

A senhora que havia escolhido o meninozinho para amar, também buscava um pouco de amor. Sua inocência havia sido pisada, roubada desde muito cedo, sua alma tornara-se esconderijo para seus sonhos, a vida não havia lhe dado muitas oportunidades para torná-los reais... Apenas sobrevivera naquilo que um dia disseram-na que era vida. Sua miséria estava estampada em suas mãos e olhos, carregava a dor de toda uma vida escassa, mesmo depois da tranqüilidade alcançada com tanto esforço. Marcas irrevogáveis.

Ambos compartilhavam da alegria de viver. A senhora voltara a sonhar, e tornara-se outra vez menina. Seus passos eram mais aéreos, seus olhos como bolhas de sabão, e seu sorriso, este era um sorriso com profunda docilidade. Dentro da velha casa, havia brotado um lindo jardim, com as mais belas flores, e as mais leves brisas. É, que seu velho corpo agora estava pleno de alma, e abastanças de sentimentos revigorados. Chorava de felicidade, chorava com gratidão... E o pequeno menino de fome nunca mais havia chorado, tão pouco dos dias de vazio e tristeza. Estava experimentando o amor, e o amor estava sendo realizado em sua absoluta plenitude. É que os frios invernos perdem-se a cada alvorada de primavera.
Ciclos se fecham... Mesmo aqueles construídos com felicidade. É a vida. Depois de algum tempo, a senhora que estava mais senhora ainda, definhou em sua velhice. Faleceu dormindo, em uma noite qualquer, aquecida pelo amor do filho, naquele último instante. No menino, lágrima alguma lhe molhou a face. Abraçou a mãe, com o corpo ainda quente e agradeceu-lhe pelos instantes que havia desfrutado junto a ela. Fechou os olhos e agradeceu numa prece. Naquela noite dormiu entrelaçado no corpo desfalecido da velha senhora... Como galhos de uma árvore agarrando os frutos para que não caíssem. Certamente esta não foi uma noite qualquer. Foi noite de profundo luto.

Após longínquos tempos, o menino que nunca deixara de ser menino, faz demasiado esforço para não esquecer as recordações da velha senhora. Sentado na varanda de sua casa, contemplando um nostálgico entardecer, envolto em ligeiras brisas que balançam os filtros dos sonhos, as cortinas e seus cabelos brancos, diante do belo crepúsculo que se formara. Ele pinta o rosto de sua senhora maternal, para que jamais esqueça daquela que lhe mostrou a delicadeza do amar e do compartilhar. O velho pintor em meio aos pincéis e tintas chora com ternura, pois acaba de sentir-se todo menino, acalentado naqueles braços nunca esquecidos. E todo menino enxuga as lágrimas, vai até a cozinha para fazer chá de macela. Macela, este era o nome de sua nobre senhora...



Sindri Nathanael



Bruno Torfs






ESFINGE NEGRA



“Assim como falham as palavras na tentativa de exprimir qualquer pensamento. Também há falha do pensamento quando se quer pronunciar aquilo que deve ser dito em apenas uma palavra; para que a idéia não se perca nos labirintos das frases. Que fazer? Deixar o que vem antes das palavras, em segurança. Guardar a idéia puríssima no silêncio. Palavras não são de se brincar.”


Arriscando, tenta-se:


Ela acha que consegue conhecer o que as pessoas sentem. Vai vê consegue mesmo. Mais o que importa, é que ela própria se perde em seus sentimentos. Isso causa uma desorganização profunda em sua vida íntima. Passando assim, a descobrir formas de distraí-se de sua dor latente, convivendo nesse caos de forma incrível. Saltando de um medo para outro, esquivando-se das tentativas de solução. Ela conhece a saída. Tem a chave da porta, mais não à coragem para levá-la a fechadura. É um perigo muito grande compartilhar do medo de uma outra pessoa. Melhor compartilhar fome. Ela compartilha medo e verdade; suas verdades, mais não todas. Ela também é um mistério. E carrega o peso de ser um mistério, levando-a a correr o risco que é aventurar-se na viagem interna, em busca das respostas. Essa busca íntima, também é um perigo. Ela corre o risco, e paga o preço da audácia.

Intensa, dança para alegrar o espírito, no ritual seco de seus movimentos. Dança para sentir seu corpo. Gosta de descobrir-lo e submete-o ao limite de suas expressões. Ela se diverte. Seu divertimento está nas coisas mais improváveis: lambe o sal da pele, vê ondas em piscinas, ler versos ao redor de um copo... Desestabiliza os fracos e inclina os fortes. Desafiadora. A ela não falta ar. Faltam pulmões, faltam cigarros. Ela faz tudo por capricho, às vezes funciona ao contrário sob seus ares de marquesa. Entende os presos e absolve os condenados. Ajoelha mais não reza. Odalisca, freira, vadia. Preta... Branca... Colorida. Ela é toda ela. Todinha...


― Menina, entra já pra casa, olha o sereno... Vai pegar um resfriado.


— Já vou mamãe, apenas me deixa terminar de contar as estrelas...




Sindri Nathanael