Olga Oreshnikov

 

  

  

 

 


Demora cinza


Demorei três horas para beijar os lábios dela
Faltou-me tempo para contar os fios do belo cabelo
Como faltou tempo resolvi penteá-los
Pensei nas montanhas de Minas
Nos cabelos de cachoeira
Comecei a contar os poros dos seus seios
Verificar as curvas que esconde
A grande anca que sustenta
O sorriso aberto e largo que me oferece
E implorei para dormir em sua nuca
Ali encontrei a gruta em paz
Fiquei quietinho esperando o tempo macabro passar
Até que pensei em dormir para sempre
Acordei morrendo na manhã cinza do inverno que se aproxima
O tempo, meu maior inimigo, passou
Ela novamente beijou minha testa triste
Fechou a porta, tapou a nuca
E tive que enfrentar a humanidade,
a finitude e a podridão que é este mundo dos bípedes humanos


Lúcio Alves de Barros


Olga Oreshnikov

 

  

  


O sorriso em movimento




O sorriso de esmeraldas teima em não se abrir no interior do coletivo.

Vítima dos solavancos sem fim, a bela se apega às janelas que passam.

O perfil tenso e forte paulatinamente se rende aos largos lábios que abrem

Brincos cintilantes balançam conforme o repousar das rodas grandes do veículo

A multidão cega se aglomera e dá de costas ao belo sorriso que ilumina o ônibus

Aos poucos, os cegos viajantes vão deixando o navio, um após o outro.

Ponto a ponto desce mais um do navio negreiro entupido de gente

O próximo ponto parece ser o dela

Com pés finamente fincados no corredor, ela se contorce entre os que bloqueiam sua passagem

Aperta os olhos e os lábios, outrora abertos e em luz,

Puxa a cordinha azul e novamente as pérolas se abrem

Decidida vai colocando finamente o corpo diante dos que estão frente ao seu.

Delicadamente vai descendo, apega-se ao corrimão e um degrau após outro se vai...

Tal como a brisa da manhã que acorda minha saudade.




Lúcio Alves de Barros


Olga Oreshnikov

 

  

  


 
Da insignificância de minha vida

“É tão belo como um sim / numa sala negativa.
... Belo por que é uma porta / abrindo-se em mais saídas...”.
(João Cabral de Melo Neto)


Desejo ser um poeta como Pablo Neruda
Quero sentir a humanidade de Álvares de Azevedo
Escrever com sangue tal como Clarice Lispector
Delicadamente como Cecília Meireles e Ferreira Gullar
Sensivelmente como Cora Coralina
Amar como Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes
Se entregar como Camilo Castelo Branco
Sofrer na alma como Augusto dos Anjos
Falar como Gregório de Matos
Instigar como Adélia Prado
Ver como Fernando Pessoa e Mário Quintana
Atingir o estômago como faz Florbela Espanca
Sujar as mãos como Bertold Brecht
Limpar a alma como Dostoievski, Sartre ou Camus
Morrer como Murilo Mendes
Viver como Chico Buarque
Descrever como Euclides da Cunha
Enlouquecer como Lima Barreto
Elucidar como Machado de Assis
Tornar-me íntegro como Gilberto Freyre e Florestan Fernandes
Otimista como Adriano Suassuna e Darcy Ribeiro
Ser incansável como João Guimarães Rosa e Graciliano Ramos
Realista como Castro Alves e João Cabral de Melo Neto
Tocar como Tom Jobim
Cantar como Elis Regina...
Diante de tanta divindade... é belo ser insignificante.


Lúcio Alves de Barros


Olga Oreshnikov

 

  

  

  

  



Assanhadinha


Lá estava ela, toda danadinha
Cabelos de cachoeira ao vento andava toda soltinha
Era bonitinha, meio gordinha e fofinha
Mas estava meio doidinha

Apaixonada e maravilhada
Ficou animada, pois amada sentiu-se superestimada
Ardia de desejo que se torturava
Em meio aos homens sua pele flor de janela exalava.

Preocupada e desejada
Ficou apaixonada e desesperada
Cheia de amor não percebeu que por um anjo foi fisgada
Enamorada, aproveitou a chance deseducada

Com João, ela gritou e gemeu
Muito mais animada e feliz, fez e aconteceu
Em um belo dia de lua morna, a virgem disse que nada doeu.
E no final da madrugada. Deus, a ela e a ele, conheceu.

Assanhadinha com o tempo logo cresceu
Educada e alinhada, ao João, o pai conheceu
Com o tempo pensou que o mundo a esqueceu
Após o nascimento da filhinha, Assanhadinha entristeceu.


Pensou que o amor sustentaria a barriga que desenvolveu
Com o passar dos dias João enlouqueceu
Ela sentiu que um novo amor apareceu
A sua filha linda, de olhos claros, nela reacendeu.

Hoje ela trabalha, estuda e, longe do amado, pouco descansa
A pele anda seca e o belo cabelo cortado revela que a vida não é mansa
Jovem e adulta a bela cultiva a perseverança
A sua filha, o maior amor da sua vida, deu o nome de esperança.


Lúcio Alves de Barros

Olga Oreshnikov

 

  

  


A verdade que dói


A verdade é essa:
Ao silêncio estamos fadados
À crueldade nua e pura
A democracia é uma ilusão
A justiça uma farsa
A igualdade uma falácia
A liberdade uma retórica
A honestidade é para poucos
A sociedade é a do silêncio apático
As pessoas esperam somente um deslize
As sádicas e perversas aguardam uma palavra
Assim podem denunciar e gozar com o sofrimento alheio
Ao sabor dos ventos sentem prazer em acabar com reputações
À sua vontade, com ajuda de iguais, pedem sua morte
A situação parece drástica
A questão sustenta contornos subjetivos, mas não é...
A verdade crua é o obrigatório calar, cabendo ao diferente, se rebaixar ante as injustiças
Acabaram com a lealdade
A mentira, a hipocrisia e a maldade tornaram-se irmãs
Acertaram em cheio a compaixão
Atacaram a PAZ e a humanidade
A busca incessante é para ter e aparecer
A imbecilidade venceu
Abre-se mão do ser em favor do espetáculo histérico e sem lugar
Acaba-se como o outro sem pena, rancor e remorso
A alteridade, berço da diferença, vive no pronto-socorro...
Aos pais e mães aparecem o medo, a insegurança e o pavor
Aos intelectuais segue o suicídio espiritual
Aos professores as doenças e a desistência cega e macabra
Aos que desejam mudar a esperança pobre e seca de metamorfoses que jamais virão.


Lúcio Alves de Barros


Olga Oreshnikov

 

  

  

  

  

Letras no seu (meu) corpo

Em homenagem a ela e, aproveitando, a Chico Buarque de Holanda


É lindo o seu belo e majestoso corpo
é possível escrever em sua pele
o nome da gente e dos que estão por vir
É bom apagar a narrativa somente no banho
esfregando as letras que saem em doces suspiros
Letras que não deveriam sair
Desejo é que elas finquem moradia no corpo, tal como as cicatrizes e as tatuagens.

Somente a poesia pode revelar as curvas das avenidas que esconde
Lembram as montanhas de Diamantina
O colorido lá longe do pôr do sol
A lua de Salvador
O mar espumado de São Luiz
A areia fina de Cabo Frio
O fogo eterno que queima a terra no sertão

Em sua pele descanso minha pena
É inevitável o arrepio que causa minha escrita fraca
Ela me abate e as letras vivas como as veias se movimentam.
O corpo se vira para dar passagem à tinta fresca,
ao carinho divino e a compaixão da reciprocidade.

Remexendo o corpo vai dando lugar a novas frases e contundentes esculturas,
novas e novas metáforas entram pelos poros.
Vejo os detalhes da vida e no retirar das letras com água ainda morna,
no banho cheio de espumas, a vida não se esvai.
De certa forma marquei sua pele, o espírito sentiu e o coração também.
Minha pena secou e deixou para sempre a saudade no vazio inacabado de minha alma.



Lúcio Alves de Barros


Olga Oreshnikov

 

  

  


Por partes


Vamos por partes
Por partes eu não vou

Vamos pelo todo
Pelo todo não desejo ir

Vamos por onde?
Temos que ter por onde ir?

Por quê não?
Não é melhor a insegurança?

Por que ter medo dela?
Vamos viver
Deixar a chuva banhar o medo,
Levar a esperança, lavar a perseverança, respingar a temperança
O sol nos observará e secará
Então deixe os cabelos livres, não há porque penteá-los

Vamos colocar os pés no chão
Sentir a terra
O cheiro da chuva
Amar a lua
Fazer sexo com o sol

Vamos nos trabalhar, beijar, abraçar, apertar os corpos
Vamos viver a vida, sem cobranças, mandos, desmandos e perfídia
Vamos viver, tatear, tocar, sugar, lembrar de tudo e do tempo que não passa
Antes que a morte e a velhice nos batam à porta e nos leve para o todo ou para as partes.



Poesia publicada no livro BARROS, Lúcio Alves de & VILELA, Antônio Henrique. Das emoções frágeis e efêmeras. Belo Horizonte: Ed. ASA, 2006.



Lúcio Alves de Barros


Olga Oreshnikov

 

  

  

  

  


Dias amargos



Amargo foi o dia em que nasci
Poucos sabem que logo me aborreci
E tenho certeza da vontade de ter ficado por causa do colibri.

Cambaleante, como um soldado perigosamente ferido em guerra, sinto-me apedrejado
Amarrado e, sinceramente desconfiado, levanto o meu corpo já cansado.
Distante vejo o mundo arrebentado, destruído e alienado.

Tenho e sinto culpa por ter esse rosto assertivo
Mas há tempos que não vivo
Há tempos que persisto, persigo e tenho ciência que me privo...

Horas, dias e meses passam, e o tempo é o melhor amigo
A temporalidade, contudo, é o pior inimigo
Ambos passam, tal como a minha porca vida se esvai
Não encontro uma pessoa que, viva em minha lágrima, cai

Talvez a vida seja isso, um longo e perigoso teatro
Não suporto os potentes, os onipotentes e os que na verdade andam de quatro
Distante do desejo de ser protagonista desse mundo de homens e mulheres de aço
Prefiro a impotência, a simplicidade e má sorte de ser um eterno palhaço.

Lúcio Alves de Barros


Olga Oreshnikov

 

 

 


SOMENTE UM


Estou fadado a ouvir os seus passos
pelos quais vai firme e devagar,
sobre pequenas nuvens e espumas do mar.

Penso e imagino os leves deslocamentos
que lentos vão atender a um chamado que desconhecido.
Contorço de ciúmes e sonho que caminha em minha direção.


O auto-engano me traz sua voz
que cochicha em meus ouvidos e acalma
sossegando o coração e a alma partida pelo medo do desconhecido.

O mundo não espera, o cansaço me supera e rouba forças
Guardadas para cuidar de suas dores, desamores e infortúnios.
À deriva navego em um turbilhão de ondas de sentimentos,
o ar me falta, mas e a desejo tanto que não abro mão de seus sofrimentos.

Se necessário quero me confundir com eles
Acabar-me neles e,
diante da possibilidade de vê-la infeliz,
sonho em protegê-la, em tê-la, em ser você
e que somos, nesse mundo desencantado, somente um.

***
Lúcio Alves de Barros (poesia publicada no livro BARROS, Lúcio Alves de & VILELA, Antônio Henrique. Das emoções frágeis e efêmeras. Belo Horizonte: Ed. ASA, 2006. p. 102).



Lúcio Alves de Barros

Olga Oreshnikov






***
  Mal-estar

 Ao lhe ver nasceu o desespero,

 uma lucidez embriagante,

 dessas de cortar braços e pernas,

 lembro-me da luta diária do passado...

 de um céu que sufoca, a furar olhos e estourar tímpanos...

 fiquei cego,
 arranquei cabelos,


 bati os pés e chutei a vida como se ela fugisse de mim...

 beijo a morte todos os dias e faço questão de ir rumo ao sol

 tudo isso porque a loucura me persegue.



 Lúcio Alves de Barros
***