Adela Leibowitz





A vez primeira em que fitei Tereza



A vez primeira
em que te vi comigo,
de olhos voltados para
os olhos meus,
ante o impossível
de seguir-te, amigo,
tive desejos
de
dizer-te adeus

Passaram meses...
Nosso amor crescia

(e assim o houvesse
conservado Deus!)
Naquela sereníssima agonia
trocando olhares
e
dizendo adeus!

Tentei fugir,
mas fui por ti vencida,
e, um dia,
presa entre os braços teus,
tive a impressão
da extrema despedida...
Primeiro beijo - derradeiro adeus!...

Veio-te a saciedade
do desejo;
teceu o fado
os labirintos seus...
Tão perto ainda
e já quão longe vejo
o teu amor
a me dizer
adeus!

Passou depressa...
Como que se evade
teu lindo vulto,
entre os soluços meus...
Vieste para deixar
esta saudade
a me acenar,
num imortal adeus!...

Gilka Machado


Adela Leibowitz








SÍMBOLOS



Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento
do mar, fero a estourar de encontro à rocha nua...
Um símbolo descubro aqui, neste momento
esta rocha, este mar...
a minha vida e a tua.

O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento
de quem maltrata e, após, se arrepende e recua.

Como compreendo bem da rocha o sentimento!
São muito iguais, por certo, a minha mágoa e a sua.


Contemplo neste quadro a nossa triste vida;
tu és esse dúbio mar que, na sua inconsciência,
tem carinhos de amor e fúrias de demência!

Eu sou a dor estanque, a dor empedernida,
sou a rocha a emergir de um côncavo de areia,
imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia.


Gilka Machado



Adela Leibowitz







Ser Mulher ...



Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida;
a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...


Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro
e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no Ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

Gilka Machado

Publicado no livro Cristais partidos (1915).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 106.