Ekaterina Abramova

 

  

  

  

 

Lembra-te


Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos


MARIO CESARINY

Ekaterina Abramova

 

 

  

  

  

 
Passagem dos elefantes


Elefantes na água optimistas à solta
optimistas à solta elefantes na árvore

elefantes na árvore optimistas na esquadra
optimistas na esquadra elefantes no ar


elefantes no ar optimistas em casa
optimistas em casa elefantes na esposa

elefantes na esposa optimistas no fumo
optimistas no fumo elefantes na ode

elefantes na ode optimistas na raiva
optimistas na raiva elefantes no parque

elefantes no parque optimistas na filha
optimistas na filha elefantes zangados

elefantes zangados optimistas na água
optimistas na água elefantes na árvore


MARIO CESARINY


Ekaterina Abramova







***

Tantos escritores

A realidade, comovida, agradece
e continua a fazer o seu frio
sobre bairros inteiros na cidade
e algures
Tantos mortos
no rio
A realidade, comovida, agradece
porque sabe que foi por ela o sacrifício
mas não agradece muito
Ela sabe que os pintores
os escritores
e quem morre
não gostam da realidade
querem-na para um bocado
não se lhe chegam muito pode sufocar
Só o velho moinho do acordeon da esquina
rodado a manivela de trabuqueta
sem mesura sem fim e sem vontade

dá voltas à solidão da realidade


MARIO CESARINY
***

Stefan Blöndal






Stefan Blöndal

 


Stefan Blöndal


Nascido em Copenhagen, em 1964, o dinamarquês Stefan Blöndal cresceu em um ambiente musical e sempre cercado pela arte. Começou sua carreira artística a partir dos 14 anos, com criações em crayon e tinta, de forma bastante determinada em aulas no famoso Museu Dinamarquês (Danish Museum). Desde seus primeiros trabalhos, o artista já rejeitava convenções teóricas da arte contemporânea, como que criando sua própria partitura. Sua outra paixão focava pássaros predadores e tornou-se amestrador treinado de falcões, o que naturalmente estava retratado em sua arte.
Aos 20 anos conheceu sua futura esposa, a pianista  Nina Kavtaradze, que passou a exercer enorme influência sobre suas pinturas, como modelo e como crítica. A rigor, foi ela quem levou Blondal a partir para a pintura a óleo, abrindo uma nova dimensão em sua história como artista do branco-e-preto. Tanto que em 1987 o artista promoveu sua primeira exposição, “com uma coleção de pinturas poderosas”, no dizer de um crítico. O artista se divide em períodos, caracterizados por um interesse figurativo natural, que passa por retratos e nus, frequentemente elaborados em formato feminino e demonizados, até amadurecer a fascinação da multiplicidade de formas e combinações de cores.



  

  

  

  

  

 



Ciranda Sem jeito



Não sei muito bem porque escrevo
talvez
quando a alma vagueia
à procura de letras
a vida truncada
no varal aqui fora
estremece

será sempre?
ou por um átomo de tempo?

(nada sei muito,
tampouco)

escrever frases desconexas
para gerar o absurdo
dos encontros
mais belos

criar o avesso
de uma saia rendada
e girar
girar
numa ciranda sem jeito

(de que me resta o sentido de ser?)


Ana Paula Perissé



Sou qualquer coisa que vive na vertigem de ser, que sonha e que se perde, que se reencontra na pulsão vívida do Outro ou que foge do local onde está para voltar e escapar virada e remexida em minhas entranhas...
Sou apenas uma viajante, aprendiz do tudo e do nada,
Quem sou eu???? Nunca saberei, posto que não sonho com certezas...
Ah! Definições! Ah! Clarice!
Sou casada, tenho um filho muito amado, sou cidadã carioca e luto muito para continuar sendo. No cotidiano, sou publicitária e sigo carreira acadêmica. Já estudei no exterior e hoje faço doutorado na UFRJ.
Meus trabalhos publicados estão concentrados na área científica, porém participei como poeta, da Antologia Dellicatta III, lançada na Bienal do Livro em São Paulo.
Gostaria de, em paralelo ao trabalho acadêmico, continuar meu ofício de poeta e de escrevinhadora (para escritora, estou muito longe..., tanto a aprender!) porque todos os leitores merecem minha honrosa reverência.


Stefan Blöndal

 

  

  

  

  

  

  

  

  
 

 

  


Falésias Vermelhas


são falésias vermelhas
à beira de uma jangada
sem dor
bronzeada de barro e sal
maresia de tantos ventos

são falésias vermelhas
que fui procurar
rubra por desejar
mar que já bate
em ciclos perdidos
de mim

são de falésias vermelhas
o rosto que construo
em sonhos cristalizados
em ébano.

ondas de sedimentos
no escuro.


Ana Paula Perissé


Stefan Blöndal

 

  

  

  

  

 

 

 
Diferença e repetição



até quando repetição
pode ser diferença?
por ritmos, cadências,
percursos ou lembranças
de rastros de ti.

um lamento de papel como se fosse
diferença
repetição de te querer
que me abriga.

até quando o mesmo sonhado
há pouco, alhures
subsiste em nuances salinas
de marés cheias
plenas de ti?

(saudades em pranto calado
a temperar-me a vida)

Resvala em mim
a ilusão de cada único momento
ou gorjeiam marés de pássaros
prateados
tudo de nós
enterrado
nos ares.

Ah! uma ausência de mim
sem rastros.


Ana Paula Perissé


Stefan Blöndal

 

  

  

  

  

 

 



Pequena Oração Pagã


Vem sol
vem lua
a pulsar
no pequeno instante
de 1 vida.

vem luz
vem treva
a dançar
na fogueira ausente
de uma noite sonhada.

vêm vagas
de mar
no único toque
de útero húmus
de 1 só olhar.

(vem,
descem
e suspiram pálpebras)


Ana Paula Perissé