Agnes Boulloche






'Eu'


Esta que sou e que me persegue em palavras

Diante de mim, cristalina paisagem.

Em mim, desfazendo a miragem...

Esta que sou e que se desdobra em sílabas.

Que se compõe de poemas

E me traduz no âmago e me desfibra encontro pleno.


Inteira, reconciliada, recomposta.

Felina, falta parada, triste sina...

Esta sou eu. Imagem minha. Resplandece. Ocaso.

Amanhece. Um caso. É minha imagem.

Em palavras, em palavras, em palavras desdobradas.

Em sílabas, em versos, em letras, em borrões, descuidada.

Em mim, tão feliz, tão recôndita, tão completa.

Enfim, esta que sou, completa-me, permanece em mim.

Atitudinal, esfera e tal, segura e firme, palmilha,

nos textos, digita nas páginas alegrias incontáveis.

Felicidades alcançáveis, muita cor, muita miragem.

Um sonho real. Sou.

Kátia Torres Negrisoli


Agnes Boulloche






Vem brincar de roda comigo...........
Vem, dá-me tua mão.......................
Vem brincar de roda........................Lampião não está cego, n~/ao!!!!!!

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Eis que a noite chega e traz na melhor hora seus anseios.
Enovelados em pertences de terceiros, agrupados em papéis esparramados.
Nessa hora de Ave-Maria, em que o crepúsculo desarma nossas forças inúteis
É que emergem à fronte o seguro, o inevitável sentir mais que pensar.

Avisando o cérebro cansado dos trejeitos, das tramas urdidas
Repousando o corpo quadrado, estirando em todos os sentidos.
Numa hora um passar, um tempo, um quasar...
Nesta hora um aviso desmedido, um alerta, um sentido.

Um pouco do ontem, misturado ao hoje, num amanhã sem fim.
Nesta hora o veneno, a serpente, passeiam em busca da gente.
Os pássaros se recolhem, as flores se acalmam, a natureza conspira.
Os homens se encolhem, a grandeza assusta. È nesta hora, que me encontro, diminuta!

Kátia Torres Negrisoli

Agnes Boulloche




Hoje

Quero escrever hoje, não me interrompam, já o fizeram demais.
Quero escrever hoje todas as palavras adormecidas, frases feitas, expressões contidas.
Quero deixar os rabiscos, as histórias sem sentido, como as panelas lavadas em seu brilho e a louça guardada, exatamente, em seu lugar.

Quero escrever a poesia do dia, dos varais, dos mercados, da padaria.
Toda a poesia, de todo dia, todo o valor que à alma empresta, o teu labor.
Quero escrever o que resta, o que falta, o que ficou.
Preciso desatar o nó, desfazer as rimas, que alternam em assonância.
Mais que tudo, preencher a página, relegar ao texto o melhor que ficou.

Não pode mais o poeta ser um fingidor, não pode o poeta inventar a própria dor.
Não pode escrever em máscaras profanas de jardins santos.
Poeta que é poeta se desnuda e não descuida, dá veracidade à cotidianidade.
A paixão que era pura era mentira e já morreu, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou.
A hora de cirandar chegou...


Kátia Torres Negrisoli



Agnes Boulloche




Beijo

Beijo-te com ternura, paixão e gostosura.
Menino vadio de sol forte e travessuras.
Coloca o boné, levanta a campina, atravessa a soleira.

Há espreitas primeiras, em porte de fitas, em mais alta finta,
A sondar-te entre as frestas, em noites, serestas.

Beijo-te com a voracidade do ladrão, a disposição de um leão,

E a tenacidade de garoto principiante escorrendo entre-dentes,
A paixão, viva-emoção de largar os cuidados, de deixar os venenos
Entorpecer a razão. E não te beijo e não te digo, somente rezo.

Porque amanhece nos trópicos e o suor enlouquece.

Kátia Torre Negrisoli



Agnes Boulloche





It


Quem poderá deter a minha alma? Quem? Nem eu! Nem ninguém!

É todo dia assim, este lutar, este ficar e ser, este buscar...

Não pára, não para, não para.


Quem poderá me seguir? Quem? Ninguém!


Em quem o espelho? Em quem?!


A refração e ato ligeiro?!


Alguém.

Eu.
Id.
It.

k.

Kátia Torres Negrisoli



Agnes Boulloche







Na luz da cidade torta,

Enquanto dorme e morta,

Desfaz-se o lume escondido

E se mostra no visível beco
Ecos detritos espalhados,

Faíscas de restos bordados.


É lixo no luxo; cão vadio,

Transportando no cio...

A lata que cai, na cangalha que vai

sem-vergonha encontrar... seu amor!


É Luxo?! É Lixo?! É supérfluo?! É finito?!
Não... é o homem, que rabisca seu contorno,
Em sombras de esquinas...
E passa assobiando pelo vazio

e ri de si para si, como é bom VIVER!

Kátia Torees Negrisoli

Agnes Boulloche




***


Um emblema é tudo
Um tema um poema
Imenso teorema.

Um tema é tudo
Um emblema num poema
Velho teorema.

Um teorema assusta
Emblemático
Sem poema.

Kátia Torres Negrisoli


***