Catherine Abel







CASO RARO



Somos um caso raro:
- Somos gomos de um ovo,
Ano novo sem fogo no rabo.

E essa rosa?
E essa roda?
E essa moda?

E o tal cravo?
E o tal trato?
E o tal prazo?
Onde está o vaso?

Sente a aorta?
E a corda?
E a porta?
E a orla?


Só as ondas nos levam.
As estrelas do mar nos desejam.
- Arrebentação!

Somos marítimos:
- Mar de ritmos,
Martírio mútuo.
- Tumulto!

E esse sol?
E esse chão?

Vêm eles
Do mesmo lugar?
Do mesmo luar?


Chão árido sem ritmo.

Mas saiba
Que toda vez
Que, com altivez,
Me arrancas de mim
(erva tenra que sou da terra)
Volto rente,
Volto diferente:

- Mais doído,
Mais doido,
Mais moído,
Mais caolho.

Réstia de alho.
Réstia de sol.
Restos de volta:
- Revolta!

E aí vejo
Tudo sem ângulo,
Engulo teu ego,
Viro por dentro
Carnaval de teu ritmo,
Mar de teu chamar,
Martírio,
Lírio... Lírio!

- Viro lírio viril. Delírio!


Oswaldo Antônio Begiato

Catherine Abel








PACIÊNCIA


Não sei se é um novo amor
Que faz esquecer as dores
De um amor antigo que partiu,
Ou se é o tempo que,
Das dores de amor,
Cuida com seu passar vagaroso.


Não sei se é Deus
Que de tudo cuida,
De todas as feridas,
( as de desamor e as de amor),
Ou se quem de tudo cuida é o tempo,
Com seu passar vagaroso.


Seja quem for que cuide
Dessas dores todas,
Exige de nós paciência.
Muita paciência.


E assim vamos todos nós
Andando na corda bamba
Nesse circo de espantos
Onde somos pássaros indefesos.


Oswaldo Antônio Begiato

Catherine Abel







PIPA E PIÃO


que seu passar seja imagético
como são imagéticas
a sensualidade de teu cheiro
na minha imaginação:
- as imagens do teu corpo perfumado
distribuído em curvas atordoantes
de cá pra lá
de lá pra cá
flutuam na minha cabeça
como uma pipa que
vai ao céu
e volta
vai ao céu
e volta
até quebrar a linha e se entregar
rodopiando
rodopiando
à linha do horizonte sem curvas


Oswaldo Antônio Begiato

Catherine Abel






Catherine Abel







MUNDO DA LUA


Eu vivo no mundo da lua;
Sou amigo particular do dragão
E tomo cerveja com São Jorge
Nas noites em que, cheia,
A Lua imita o uivar dos lobos.


Sou noivo da estrela cadente;
Ouço todos os pedidos secretos
Dos jovens com os sonhos em rebuliço
E quando brincamos na Via Láctea
Peço a ela que una os corações sensatos
Com a dobradiça das paixões dementes.
- Ela me obedece e eu a amo ainda mais.


E quando estou absorto no mundo da lua
Morro de paixão por ela,
Minha pequenina estrela menina,
Que achei cadente no meio do meu olhar,
No meio do meu olhar triste e solitário.


Oswaldo Antônio Begiato

Valentin Rusin






Valentin Rusin










Vamos fazer uma coisa:
escreva cartas doces e azedas
Abre a boca, deusa
Aquela solenidade destransando leve
Linhas cruzando: as mulheres gostam
de provocação
Saboreando o privilégio
seu livro solta as folhas
Aí então ela percebeu que seu olho corria
veloz pelo museu e só parava em três,
desprezando como uma ignorante os outros
grandes. E ficou feliz e muito certa com a
volúpia da sua ignorância. Só e sempre procura
essas frases soltas no seu livro que conta história
que não pode ser contada.
Só tem caprichos
É mais e mais diária
– e não se perde no meio de tanta e tamanha
companhia.


Ana Cristina Cesar



Valentin Rusin










Nada, Esta Espuma


Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco 
quero tanto os seios da sereia.


ANA CRISTINA CESAR


Valentin Rusin









Aventura na Casa Atarracada


Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora, 
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.


ANA CRISTINA CESAR

Valentin Rusin








é muito claro
amor
bateu
para ficar

nesta varanda descoberta
a anoitecer sobre a cidade
em construção
sobre a pequena constrição
no teu peito
angústia de felicidade
luzes de automóveis
riscando o tempo 
canteiros de obras
em repouso
recuo súbito da trama


ANA CRISTINA CESAR