Bruno Torfs








TECENDO UMA VERDADE




Com o rosto aparentemente sóbrio, vi-me diante de um susto. Não poderia acreditar que uma face podia encontrar-se desprovida de todos os disfarces, de todos os segredos... Ou poderia? No corredor da faculdade de filosofia, eu estava contemplativo, olhando vagamente um corredor, e este atravessava todos os outros corredores, que conduzia a várias salas. Surpreendi-me com o que me ocorrera: então era isso, cada caminho designava uma escolha de cada pessoa que ali estava... O que realmente buscam? Mais o que eu estou buscando? Seria apenas uma perecível tentativa de preenchimento? Foi divagando pensamentos, que ainda sentado, sentir um rosto aproximar-se. Sutilmente aproximando-se, para meu espanto. No primeiro instante, não pude perceber seus olhos, boca, nariz... Um rosto só é rosto, se tiver todos estas coisas que o formam? Ou, seria algo antes disso? Sim, era um rosto, isso eu sabia. Mais o que a vida estava revelando-me? Não estava preparado para entender aquilo, não importava o que fosse. Naquele momento, era inconcebível. Vertigem de fome... Pensei, e sorrir com sarcasmo.

Levantei-me. Pisando em minha sombra, caminhei pelo corredor, à procura da sala onde estudava. Procurava numa angustia de quem nunca estivera estado naquele lugar. Tornara-se um ambiente desconhecido, absolutamente incógnito. Continuei seguindo, contando cada passo que dava, e a cada dez passos, parava intuitivamente, somava com os outros dez passos anteriores, numa inútil tentativa de unir o presente ao passado, por que, ao uni-los, eu estava tornando o passado num presente. Eu desejava uma outra coisa. Como por instinto, não por memória, encontrei a porta da sala de filosofia. Ao abri-la lentamente, foi como abrir a porta da casa de um estranho, sem permissão. Que susto. Espantadamente encontrei-me em mais uma situação aparentemente incompreensível. Deparei-me com vários rostos. Desprovidos de todas as peculiaridades que os caracterizam como individuais. Não, não havia os tais olhos, bocas, narizes... Aniquilados estavam, lisos, todos iguais; porém de alguma forma a mim foi concedida à percepção para sentir cada um deles. Eram todos diferentes, mesmo com a analogia superficial que estava diante dos meus olhos amedrontados.

Os percebia intimamente. Era dolorosamente assombroso conhecê-los, e esse estreitamento íntimo impelia-me violentamente contra meus pudores. Poderia confiar em minha ilusão? Seria ilusório, ou seguro ao extremo, para crer, sem a resguarda da dúvida? Eu estava tecendo uma teia sobre o mistério. Todos os fios amarrados, prestes a arrebentar-se. Esta era uma verdade, ela assustava-me em demasia, talvez por eu não puder compreender o que aquilo significava. Sussurrava-me: “Estou contando-te segredos que nunca deveriam ser revelados... Os aceite”. Mais... Não deveria encontrar satisfação ao descobri-los? Desvendá-los deveria ser um triunfo; por um tesouro tão formidável, muitos dariam abastanças. Não foi o que aconteceu. A sensação da descoberta imaculada, causava-me horror.

Se toda a força, e toda a coragem fizessem com que minha existência aceitasse aquela verdade, eu estaria salvo. Salvo de todo meu medo e da minha ausência de entendimento. Com urgência eu quis fugir. Meus pés retrocederam alguns passos; torci a maçaneta com pressa, para logo está de volta ao outro lado. Estando lá, no corredor, pasmado, percebi com clareza o que havia vivenciado. Mentira. Isso... Tudo era uma grande mentira, não o que vira naquela ocasião, mais o que sempre vivera... O que sempre acreditara. Sente-me novamente em repouso, pois estava enfraquecido... É que a verdade também nos enfraquece. Atentamente observei as pessoas ao redor. Depois do que havia experimentado, senti-as de uma outra forma, que nunca havia antes conhecido, sabia que aquela descoberta ser-me-ia uma tormenta para o resto da vida: estavam todos mascarados. Envergonhadamente mascarados.

Todos os que passavam por mim, escondiam a verdadeira face com máscaras; e naquele instante, só naquele, como se ainda me fosse permitido vê a diferença, sentir-me instantaneamente corrompido. O que eu sempre chamara de rosto, era unicamente máscara. Toquei meu semblante descorado com receio: meu Deus, eu também era uma mentira, também estava encoberto. A vida então seria um constante baile de máscaras? Agora sim, descubro porque a verdade que ansiosamente esperava-me por de trás da porta em silêncio, tanto me assustara. Eu tinha que vê-la, palavras não seriam suficientes. Mais a mentira desarranjada de que sou feito, jamais suportaria um confronto com uma veracidade... Eu descobrira essa verdade. Quantas outras ainda me são desconhecidas... Saberia eu viver com todas as verdades desvendadas? Ser-me-ia permitida esta plenitude? Conseguiria ainda acreditar em minhas convicções sem duvidar? No fim... Tudo é questionável. Tudo é acreditável.



Sindri Nathanael- 2008


3 comentários:

Glorinh@ disse...

Maravilhosas essas esculturas.
Obrigada por sempre compartilhar coisas tão lindas...
Bjs
namaste

Valéria Cordeiro Malheiros disse...

Amei ler este texto Tecendo uma verdade. Muito bem escrito, denso e tocante. Parabéns a este escritor Sindri Nathanael.
As esculturas de Truno Torf são bençãos do céu. Quase chorei ao ler sobre o incêndio, ainda bem que está em reconstrução. Hilário este espaço.
Sinto o toque mágico da Fada do Mar quando estou aqui.

Fada do Mar Suave disse...

Sindri Nathanael, agradeço sua contribuição valiosa para este Blog, com seus textos criativos, interessantes e prazerosos de serem lidos. Agradeço ao Bruno Torfs, por promover seus sonhos contribuindo para a beleza do mundo através da riqueza de sua arte que emocionam a todos nós.
A todos os amigos visitantes que apreciaram este trabalho e aqui deixaram suas mensagens o nosso muito obrigado.
Voltem sempre!
Beijos da Fada do Mar Suave