Chris Achilleos






Não, Não?

Não
Venda teu calor
Ao esteta primata
Não
Pense uma idéia
Que não seja tua
Não
Padeça uma dor
Que não seja justa
Não
Chute a vitória
Pr`o olho da rua
Não
Morra por dentro

Pense, pensa, pensai
Não
Como os animais
Da granja orwelliana.

Roberto Queiroz

Chris Achilleos




Artista e ilustrador, Chris Achilleos criou algumas das mais apreciadas ilustrações de fantasia e glamour dos últimos trinta anos e tornou-se uma das mais influentes figuras do gênero. Seus trabalhos incluem centenas de ilustrações para capas de livros, inclusive para autores como Robert E. Howard (Conan), Edgar Rice Burrough (Pellucidar) e Michael Moorcock (Elric). Ele trabalhou como artista conceitual para filmes como "Willow" dirigido por George Lucas, a animação adulta "Heavy Metal" – agora um filme cult – e, mais recentemente, dramas históricos como "King Arthur" e "The Last Legion". Chris é reconhecido por sua original interpretação das fabulosas Amazonas, Dragões e outras incríveis imagens de fantasia.


http://www.chrisachilleos.co.uk/main/home/index.html





Amigo

Meu amigo pena
Mas que não pena por algo
Que não seja um penar pensado.
Meu amigo pensa
Mas que não pense por algo
Que não seja um pensar penado.
Porque nada que não valha a pena
Deve ser pensado pensa nisso.
Porque nada que um pensar não valha
Deve ser penado.

Roberto Queiroz


Roberto Queiroz


Jornalista, escritor e poeta, nasceu em São Vicente, SP, a 31 de março de 1953.
Foi militante ambientalista, participando do jornal Raízes, primeira publicação brasileira sobre meio ambiente, atuando ainda como professor universitário. Como jornalista, especializou-se no universo dos transportes e carrega na bagagem a vivência das estradas, viajando por várias partes do mundo. Atualmente, é editor da revista Transpo Magazine e do portal WWW.transpoonline.com.br
 

Willi Kissmer






Willi Kissmer




Poema Porrada



"Eu estou farto de muita coisa

não me transformarei em subúrbio

não serei uma válvula sonora

não serei paz

eu quero a destruição de tudo que é frágil:

cristãos fábricas palácios

juízes patrões e operários

uma noite destruída cobre os dois sexos

minha alma sapateia feito louca

um tiro de máuser atravessa o tímpano de

duas centopéias

o universo é cuspido pelo cu sangrento

de um Deus-Cadela

as vísceras se comovem

eu preciso dissipar o encanto do meu velho

esqueleto

eu preciso esquecer que existo"



Roberto Piva
Fragmento do "Poema Porrada"

Willi Kissmer






Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possível, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstrói entre cacos e silêncio.


Roberto Piva

Willi Kissmer





A Piedade



Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
  
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
   luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
   aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
   cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
   bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
   estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
   pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
   que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
   pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
   asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
   dos meus sonhos


Roberto Piva
in Paranóia (1963)

Willi Kissmer





QUATRO POEMAS PIVIANOS

I


As mãos invisíveis dedilham a canção sinistra
vibrando as fibras nervosas da medula
Os dentes mastigam o sem fim de peripaques nostálgicos
enquanto o mistério corre pela rua em chamas.

Aonde andará o poeta de pijama que escorrega e cai,
enquanto distraído sonha um mundo de estrelas?
Já não há céu, nem solo firme. Silencie-me! Silencie-me!
Sigo as labaredas memoráveis dos dias de luto e melancolia.

Quero a forma perfeita, o beijo, o cheiro do Apolo ruivo.
Sei da impossibilidade das horas, da complementaridade ilusória.
Olho o monte de esterco apodrecendo na vidraça entreaberta.
Janelas, penhascos, arranhásseis e corpos voadores de pedra.

Se a noite persegue minha vida, deposito monstros no aquário.
Os peixes caminham no asfalto e as mulheres usam gravatas.
Minha alma, meu desejo, minha imobilidade. Apenas eu!
Danço a quimera dos solitários e o presságio dos carecas.

Um poema, um segmento refratário. Não sei de mim.
As idéias são espasmos, e as palavras, coisa inútil.
Seria senil e insano se acreditasse no amanhã.
Vivo esse segundo que se arrasta, devorando-me.



Roberto Piva

Willi Kissmer





II 



O estrangeiro da legião de insetos
arrancou o grito de cólera e loucura
da boca arreganhada, não percebida,
do paranóico que mora nos ciclones

A bailarina, uma mulher pálida,
engole o último pedaço de vidro
arrebentado com a explosão atômica
de meus sonhos avulsos transtornados.

O erotismo atrapalhado do anão
que não mais se agüenta neste intervalo
de memórias e areias, noite e chamas.
Diminuindo cada vez mais, bactéria.

O uivo caminhando sobre a ponte imóvel.
O castelo e o muro dedilhados no quadro azul.
Sinto a introdução e o posfácio deste rio
que golpeia as paredes com mãos nuas.

O mínimo. O minúsculo. O quase nada.
Dedilhai as últimas notas vagas
que recordam a imagem deformada
do psicótico que caminha sobre o fio dental.


 
Roberto Piva
QUATRO POEMAS PIVIANOS

Willi Kissmer








III


O corvo de pelúcia esfaqueado pelas costas
traz os olhos esbugalhados mirando a parede alada.
As estantes, as páginas comidas por traças,
adormecem na noite de meus surtos compulsivos.

Olhos imensos de um desenho de carvão negro
mãos em garras batendo teclas ideais.
O cheiro de perfume velho e asfixiante.
A teia de aranha presa entre os ossos mortos.

Lá fora, homens dirigem seus carros vagarosamente
seguindo as pernas nuas das mulheres prostitutas.
Enquanto corpos se misturam na madrugada convulsiva
de salões apertados, iluminados por rosas ensangüentadas.

Meus passos, meus ruídos, aquele rosto assimétrico.
Triunfa a idéia do parto cesariano sem anestesia.
A dançarina com suas vestes invisíveis
caminha no jardim de lâminas e gafanhotos.


Escreverei dez mil poemas ao poeta necropolitano
sem esperanças de ter meus sonhos confundidos
com o delírio e o êxtase do pai xamânico.
Sou urbano, sou quase cético. Morfina e sonhos.


Roberto Piva
QUATRO POEMAS PIVIANOS

Willi Kissmer






IV


Dêem-me um anestésico. A vida dói e arde.
Não sei controlar meus impulsos demoníacos.
Não acredito em forças de outro mundo.
Sou eu, meus versos e o perigo das frações.

Arranco minhas vísceras poéticas do ostracismo.
Trezentos dias e cinqüenta noites marianas.
O caracol de meus cabelos caídos no chão de espelhos.
O sangue e os olhos transformados em areia cinza.

A árvore sem galhos escondem os meninos saltimbancos.
Foi-se o tempo em que se acreditava nas histórias ditas.
Sempre começo pelo meio e jamais olho para os lados,
enquanto rio e sufoco meu próprio rosto turvo.

Minha maquiagem, os primeiros tombos das gaivotas.
Atiro farpas e pragas para antigos e mórbidos desejos.
A torre delirante de um neocórtex em latência,
ou o pedúnculo, ou o miocárdio, ou o octogentésimo.

Quatro poemas nos espaços angustiados do processo.
Sou eu? Sou ateu? De que me valem as respostas?!
As idéias me levam ao eterno estado de castidade
entrelaçado neste puro estado de sonho e malogro.


QUATRO POEMAS PIVIANOS
Roberto Piva