Philip Hone Williams



 

 






 
Soneto para dizer nada
                                   Nathan de Castro

Somente o verso acalma o meu poeta
e acende a passarada das manhãs.
Voar fica mais leve se a caneta
sabe a saudade e o gosto das maçãs.



O amor foi um presente e me completa,
mesmo perdido e longe das canções...
A vida sem paixão é paz deserta,
sem lágrimas, perfumes e emoções.



Feliz, busco a palavra que não disse,
e digo nada... E nada é muito mais
do que todas as letras que cumprisse,
para enfeitar meus cantos madrigais.
Tenho a emoção do verso e essa doidice
de ver uns colibris nos meus umbrais.





Philip Hone Williams



 

 

 

 

 
Capa de Revista

                                                                                    Nathan de Castro




Deixei passar, passou e agora a dor no verso
que me provoca, veste sempre o meu semblante
anuviado, pálido e de olhar disperso,
a buscar no vazio o seu abraço amante.



E a flor? Era vermelha, rosa ou amarela?
Perco no espaço o beijo que traz os sabores
e o gosto da saudade amarga, me revela
que a paz da solidão esquece o tom das cores.



Da flor que joguei fora ao vento da conquista,
ficou o adocicado perfume dos lábios
e o gosto de batom na capa da revista



folheada, rasgada e esquecida no canto
da cama, onde a tristeza de lençóis sombrios
te despe toda noite, para o meu espanto.



Philip Hone Williams



 

 

 

 


Poema de Lua

                                                                               Nathan de Castro



Lá vai um poeta nos braços da noite,
na grama molhada, contando a passada.
Rabisca palavras e rimas de afoite,
talvez na certeza da chuva e enxurrada.



Lá vai um poeta, brincando de foice,
carpido de espinhos e rochas da estrada.
Vai qual uma sombra perdida no açoite
da noite que ensina o silêncio do nada.



Em busca do verso, o poeta flutua
nas ondas do tempo e enfrenta os miúras
que vagam nos trilhos das nuvens escuras.



Vai cheio de mato, saudades ao vento,
pingado de chuva, brindando ao momento
e às águas que jorram poemas de lua.



Philip Hone Williams



 

 

 

 


Soneto para Voar

                                                                           Nathan de Castro



Desculpe-me o silêncio das palavras.
— A voz que cala é a mesma que diz: não! —
Não tenho explicações para estas travas
que se fecham aos ventos da razão.



As portas da esperança pedem asas
e penas de aventuras nas canções,
para voar na dor, por sobre as casas,
das páginas de sonhos e emoções .



Tenho a ilusão do verso. Isso me basta.
Persigo a flor da doce arribação,
e um oceano antigo inda me arrasta...



— Não deixa em paz as águas da paixão. —
Bem sei que o vôo é lúgubre e desgasta,
mas não sei caminhar com os pés no chão.



Philip Hone Williams

 

 

 






Soneto Desafinado
                                                                               Nathan de Castro



O meu poema é música sem partituras,
rabeca troncha e sonsa de uma nota só.
Paixão que bebe a doce clave das loucuras
nas batutas do amor, poeira, pedra e pó.



O meu poema é mote de enganar agruras,
jazz que me envolve em tela azul de rococó.
Pincel, paleta e marcas de velhas cesuras
no corpo de sonetos que amarro e dou nó.



Silêncio de relâmpago e luas desertas,
luares e palavras de aluar pateta,
para cumprir a sina: poeta ou poeta!



Sigo pelos caminhos de portas abertas,
rasgando a solidão da palavra concreta,
desafinando a orquestra e a ponta da caneta.


Philip Hone Williams



 

 

 

 


Serenata Para Uma Estrela



                                                         
Nathan de Castro



Quero os meus versos simples, longos e sonoros,
para que o amor entenda o olhar da serenata
batendo em sua pele e penetrando os poros
até que encontre o gozo e o sol da madrugada.


Quero os meus versos simples, sempre ao som da flauta-
doce. Tão doce quanto a língua e os meteoros
dos beijos que disseram tudo ou quase nada
ao tempo da paixão que sangra em desaforos.


E, quando a Estrela ouvir, que sinta a flor do toque
das minhas mãos sugando o sumo dos seus seios,
até que o som da flauta cesse, e um novo rock


retoque o seu sorriso em mil e um gorjeios,
para que à noite o sono nunca se equivoque
e possa repousar banhada em devaneios.

Philip Hone Williams



 

 

 

 

 
Soneto Chorinho
Nathan de Castro


Preciso urgentemente de um chorinho amigo,
que me faça escrever a paixão com jeitinho
brasileiro de ser, pois tudo o que eu rabisco
o poema devolve e pede um cavaquinho.



Preciso urgentemente do sorriso de flautas,
que me ensine a acender no rosto do soneto
a alegria, as emoções das velhas serenatas,
os fins de madrugadas, a praça e o coreto.



Pandeiro e violão: instrumentos do crime.
Polícia e camburão, sol nascendo entre as grades.
E tudo em Patrocínio era felicidade!



Lembrar felicidade em sonetos suprime
palavras e amizades, não cabem nas linhas,
mas guardo esta saudade ao som de Pixinguinha.




Philip Hone Williams





 







Metáfora da Estrela

 Nathan de Castro


Preciso navegar na flor dos ventos.
Sem rios sou poesia de concreto
e perco a rima maga do quarteto,
que chega à minha foz a passos lentos.



Preciso naufragar no branco e preto.
Sem eles perco o sol e os pigmentos
que enfeitam as palavras e os acentos,
da mágica das linhas do soneto.



Preciso dos silêncios de uma estrela!
Sem eles sei, jamais posso revê-la,
e a estrada perde o encanto da alvorada...



E sigo a perseguir essa metáfora!
O tempo passa e nunca mudo a tática,
pois sei que na palavra encontro a estrada.


Philip Hone Williams








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O Ipê Rosa
                                                                                                   
Um Ipê Rosa enfeita a vista da minha janela.
A todo julho ele se veste de rosa para me lembrar que está lá,
e que sabe muito mais sobre a poesia dos meus dias
do que eu sei sobre a poesia da tela do poema
que ele se me apresenta, a cada ano.
Os meus versos preferem o Ipê roxo!
O meu poeta prefere o amarelo.
Mas quem comanda as letras tem as cores de uma
árvore perdida no tempo.
O Ipê Rosa parece saber, e...
Lá está ele, o Ipê Rosa, a todo ano, a todo inverno, com o seu olhar
de florada rosa, a me lembrar dos lábios cor-de-rosa da paixão.
Como era bela a poesia daquelas tardes!

Nathan de Castro
***